sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Na Liberdade da Poesia

                       foto: -alfred cheney johnston.

Silenciada 
de boca colada
uma voz muda percorre-me
os dedos febris em delírio.

Embriagados pelo absinto
que tomei 
desse corpo que me é rei,
sangram sobre o poema
e escrevem-no com a tinta 
desse orgão palpitante.

Hoje estou trémula,
alucinada nestas letras 
que me correm em rio 
oprimido pelas margens
impostas pelas minhas próprias mãos 
cegas!
As mesmas que me vendam os olhos
e não me permitem desnudar os versos.

O Poema quer-se nu e livre!

E perdida neste atalho
numa cegueira constante de mim
aperto-te convulsivamente
numa nudez de pura inocência
e guardo-te na mudez
desta nua, e tão minha 
(in)existência.

(eu)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

No Dia em que o Mundo ia Acabar



É fácil... muito fácil
sentir à noite a finitude
dos dias claros.

Principalmente 
daqueles sem sombras, 
que em nada deixam prever
a proximidade de um derradeiro dia. 

É muito fácil
predizer o fim do mundo,
quando se nos afiguram 
constantemente 
rostos cinzelados de lábios pálidos
a anunciarem incessantemente 
o óbito.

Todas as flores morreriam de espanto
se se soubessem a ornamentar 
as mais luxuosas cerimónias fúnebres.

Elas nunca iriam compreender:
a sua beleza em jardins floridos,
nem a sua enigmática presença
nos rituais valetudinários da morte.

Nada é mais mórbido
que um cemitério ornamentado de rosas
ceifadas à vida,
ou uma missa a encomendar a alma 
de um corpo ainda presente
já sem lágrimas para chorar.

Mesmo que esse dia, 
fosse aquele dia
em que se predissesse, 

Que o mundo até pudesse
nesse mesmo dia 
vir a acabar. 

(eu)

sábado, 15 de dezembro de 2012

Versos Congelados




Os meus olhos estão cegos
e já não seguem passos

os meus pés estão dormentes
nus e descalços.

Já não ouço vozes nem dou beijos,
nem sinto abraços nem desejos,
desprezo ironias e sorrisos falsos.

Já nem tu me podes dar abrigo,
eu sou o relento, a chuva e o perigo,
sou a tempestade e a intempérie. 

Ou as lágrimas no rosto do mendigo.

Amei miragens, debrucei-me nos abismos
desnudei-me nos versos e nas palavras
depois cobri-me de silêncios invisíveis.

Para quê gritar sons inaudíveis?
Na eloquência do sangue derramado
o mesmo que ficou congelado
nestes versos crus e insensíveis.

(eu)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Nesse Leito onde me Eternizo





Dir-se-ia até
que dentro de mim
há uma flor que renasce
em cada silaba
do poema cravado
na minha pele.

As palavras agarram-se
e tomam mais ou menos
a forma doce e inocente
de uma boca pálida
ainda por beijar. 

Ouvem-se melodias 
cantadas 
em notas musicais
que afloram fantasias
inaladas
e espiritualizadas 
como deuses inventados 
no Olimpo.

É assim que quero ficar
eternizada no tempo.

Sobre um leito de rosas 
Em que docemente me deito 
deleito e sinto.

(eu)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Um Sonho Consumado



Peço-te meu amor:
Nunca deixes que a penumbra 
me ofusque o olhar,
nem que os teus beijos 
me adormeçam os sentidos.
Cobre o meu corpo despido
com o orvalho
das madrugadas em que a lua 
se derramou sobre nós.

E só nesse momento,
eu estarei em condições 
de poder dizer-te:
longos foram os dias 
em que ambicionámos o sol
e parimos estrelas em lençóis de linho.
Desfolhámos nossos ventres 
em partos doridos 
e das penas das nossas asas 
construímos um ninho.

Hoje sinto o en-tarde-ser
da aurora 
e das mãos deixo escapar
Tantos sonhos 
que não tive coragem de sonhar.

A teu lado adormeço lentamente
e deixo-me levar nas águas do rio
que te trouxe até mim.

Doce esta inocência 
do sonho em que vivi.

Por ti esperarei sempre,
até à floração da Primavera.

(eu)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Há Dias, muitos Dias, em que as Palavras te Pertencem





Pudesse eu, meu amado,
dar vida ao sonho 
que me abrasa a alma.

Pudesse eu, meu amado,
rasgar o véu 
que te impede ver a cor 
do meu olhar.

Mas a minha glória é essa!

Olhar-te com o meu olhar lasso,
sentir-te  no rosto o embaraço,
por veres a força
do meu amor.

Vim ao mundo desbravar
florestas,
plantar flores nos desertos,
limpar caminhos lamacentos
e desdizer sábios e deuses.

Tu sabes, meu amado!

Plantei sonhos, plantei desejos,
acariciei corações, lambi feridas,
soltei olhares e soltei beijos.

Compreendi a bravura dos mares
abracei as marés e mudei os ventos
afastei de mim todos os lamentos
e lavei-me em lágrimas de saudades.

Com a cor do sangue, pintei a vida
e imaginei esverdeadas as minhas íris.

Sonhei-te, meu amado!

E no sonho havia uma força
prenhe de vida
a abrasar-me a carne....

Assim será sempre, meu amado!

Inviolável 
esta luz de esperança
que me atravessa o corpo
até ao outro lado. 

Onde o poema será 
inevitavelmente
o dia da minha morte.

(eu)

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Há Memórias que não se Gastam



Houve um dia 
em que uma voz 
me prometeu o teu olhar, 
o teu amor, o teu desejo.

Na boca senti o sabor 
do teu beijo
e guardei na memória
todas as palavras que me disseste,
todas as promessas que me fizeste.

Nenhuma palavra se perdeu
nenhuma promessa se esqueceu.

O tempo consolidou o sentimento
e ainda hoje 
guardo as juras adormecidas
no cofre
do pensamento.

E no presente,
nada se perdeu do passado.


(eu)

domingo, 25 de novembro de 2012

Palavras Cegas



Fosse esse olhar
a luz que me cega
tal como o beijo
o murmúrio silencioso
dos meus versos.

E os pássaros cantam 
ao sabor dos ventos
em ruído de fundo 
melodias
embriagadas 
pelas palavras
que nunca 
me disseste.

(eu)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O Sonho das Rosas




O pensamento arrasta-se
e afasta-se da memória
como se proibido fosse
continuar o sonho

Ouço um ruído de fundo
que se assemelha 
à turbulência 
de uma tempestade 
em alto mar.

As mesmas vozes,
os mesmos silêncios,
os mesmos olhares,
os mesmos pedaços de mim
que vislumbro 
pregados numa outra dimensão.

Entre a névoa descubro
as tuas mãos
a ampararem-me o poiso

Ainda em desequilibrio
sinto o toque da tua pele
e a brisa dessa respiração lenta
capaz de me fazer renascer 
no infinito
em pássaro parido sem rumo.

Atenta ao sibilar das outras aves
ainda consigo entrever um céu distante
murmurando em cada vaga gigantesca:

no mar também nascem flores!


(eu)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

NÃO!


Não consinto
que me tolham o olhar
desmentindo a luz das estrelas
nem sequer o sonho idealizado
na utopia do Poema
...
Não consinto
que me privem da liberdade
de voar sobre o céu do pensamento
nem tampouco me indiquem
de que lado sopra o vento.

Não consinto
o acender das tochas
para afirmar a luz do mundo
num caminho longo de trevas
onde urge um silêncio profundo

Por isso digo não
esta palavra que me liberta
na palinódia da Poesia
sempre que num grito de solidão
há uma voz que me indica
um caminho sem opção.

(eu)

sábado, 17 de novembro de 2012

Dualidades




Fixam-se letras 
à intimidade da minha pele
e em voo
pleno, indescritível,
à imagem das águas 
de um rio
faço das minhas memórias
esta viagem em que renasço
no sabor intenso
dos silêncios que não consigo calar.

Parte de mim naufraga 
no beijo que se queria céu
a outra parte emerge
do mar que me fez mulher.

(eu)

quinta-feira, 15 de novembro de 2012


AMOR DE MÃE

Quanto amor,quanta dor,quanto suor
nas veias latejantes da MULHER-MÃE...

No esplendor das manhãs,
ela está presente
em cada célula viva que desponta
na madrugada dos afectos.

No olhar tranquilo,
traz a resposta para todas as perguntas
e a arte de lidar com as angústias.

Nos lábios generosos,
o beijo e a promessa.

Ela está presente à hora do calor do meio dia
com ofertas de frescura e frutos sumarentos
do pomar da vida.

Mas é à hora a que as nuvens passam,
que ela responde com garras de leão
que revolve no corpo
e forças sobrenaturais que esconde na alma,
onde o pulsar das veias latejantes
não é apenas imagem de poetas.

Com o meu carinho,


Aurora Simões de Matos

Parabéns Filhotas


Há 22 anos, era também quinta feira. O dia amanheceu para mim raiado de Sol. Recebi a Benção de ser mãe, pela terceira e quarta vez. Eram 8h45m e 8h48m.

Parabéns minha filha Teresa *
Parabéns minha filha Beatriz *


Na Clínica de São Gabriel, em Lisboa, há 22 anos. <3 <3


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Palavras que Morrem



Perdi-me das rimas
no metaplasmo da língua
e na universalidade dos sentidos
crescem-me palavras
sem boca para as dizer.

Sofregamente 
abraço a vida que me sobra
dos anos em que intensamente
tenho beijado a tua pele.

Enrosco-me no casulo
na alomorfia do meu corpo 
Contorcendo-me na dor 
com que sinto o suicídio das palavras
enroscadas na garganta
e que a exaustão consumiu
transformando-as em silêncios.

Ainda não sei dizer porque razão
as palavras se suicidam
no tumulto do pensamento.
nem sequer se é no desalento
que (re)nascem sem pudor.

Perdi-me das rimas
no metaplasmo da língua.
quando apenas queria saber
[e diga-me se alguém souber]
a origem da palavra "amor".

(eu)

Em Prece




Há uma força 
que invade todos os silêncios
adormecidos
com o láudano da vida.

Sobra a boca 
de onde sai o grito
impossível de silenciar
mesmo nas horas mortas
em que as marés se acalmam
e recuam no desvario dos mares.

É então 
que os corpos meio dormentes
no misterioso silêncio
se libertam das amarras 
e como amantes, debruçam-se
nas vagas crispadas
até perceberem 
que afinal 
foi no absinto da existência
que no céu 
foram ouvidas as suas preces.

Então pergunto:

para quê o sangue escarpado?
para quê o vómito ensanguentado?

Se nem todas as virgens sobem aos céus
e nem todos os homens crêem em Deus.

(eu)

sábado, 10 de novembro de 2012

Disparidades



Talvez sejam poemas 
que me crescem nas mãos.
inócuos sentires
de memórias insignificantes.

Talvez até 
eu nem saiba explicar
porque razão o sonho 
me irrompe dos dedos
utópicos, acelerados
um pouco até febris.

Agigantam-se no delírio 
de pequenas silabas 
que se soltam das palavras 
involuntariamente
presas na garganta. 

São nós 
que se desatam da alma
deixando em liberdade 
pequenos pedaços 
que colhi do céu.
Vislumbres de um infinito
talvez também ele 
imaginado por mim.

Hoje queria falar da dor!

Desta dor que sinto 
a rasgar-me a pele
aos olhos
da dor daquele que estende a mão
da dor da fome da angustia 
da solidão.

Da dor do pobre!

Do que dorme numa esteira de cartão
do que suplica sem ser ouvido
na ilusão de que algum transeunte
o sinta como irmão.

Não! 
Não vale a pena falar do pobre
do fraco do imerecido.
Para ele não há perdão, 
nem compaixão. 
Esse verdadeiro pobre
que se permite consentir
vivências humanas 
em semelhante condição.

Falo da dor do humilde, do resgatado,
do forte!
Daquele que na razão inversa do ter
e do poder
é grande no coração.


(eu)

Pensamentos Geométricos



Diz-me: 
Porque insistes em fazer-me crer 
que a terra é redonda?
A mim, pouco importa saber a forma da terra,
ou o perimetro da circunferência. 
Eu vivo numa tangente hiperbólica 
perpendicular ao eixo.
De um lado, a bola maciça, 
do outro, o infinito abstracto.

Já te disse, 
que nada mais me interessa.
Nem a forma nem a substância.
Nem sequer a existência de outros astros.

Deixa-me estar neste meu espaço euclidiano.
Em que tudo é multidimensional.

Por favor não me digas que eu não te disse nada.
Porque não me esqueci de te dizer...

(eu)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012





ARABÉNS,PARABÉNS,PARABÉNS!!! 
Mil beijinhos,neste Poema ,prenda minha:


Nada se confunde com as palavras que saíram 
da tua boca.Nada terá tanto peso como um
simples cabelo que caia de ti.Há sempre quem
desperte para apanhar o que deixaste pelo caminho.
Mesmo que a sombra do arvoredo se torne
menos densa,nela habita ainda o rumor da
folhagem que acompanha o sussurro de cada
confidência deixada ao entardecer de um dia
maior.Aos ouvidos de quem passa,ficará para
sempre o timbre da tua voz a murmurar segredos.

Aurora Simões de Matos
(que lhe deseja um dia lindo,(Cristina Cebola)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Inconsistências





O pensamento arrasta-me
para o nada.
Onde o nada toma a forma de tudo.
Ele é espaço, ele é essência,
ele é Ser, ele é devir.
Numa infinidade ilimitada e perpétua
que constantemente se expande,
sem espaço sem tempo sem distância
nem tampouco substância. 
No paradoxo constante
da inconsistência mutante 
de toda a existência.
Em que todos os fenómenos se repetem,
sem que o mesmo fenómeno se repita
e, em que o autoconhecimento 
é a única razão de existirmos, 
em qualquer plano concebível
do universo existente
em constante expansão,
penso no que fui
e no desejo de me tornar quem sou!

[Enunciando assim a lei do mundo]


(eu)

domingo, 21 de outubro de 2012

Jardins Floridos



Perfeitas e aromáticas
são as rosas
que se desfolham sobre o meu peito.
No ventre sequioso
(re)nascem rios sobre montanhas
férteis de vida.

Cobertas p'lo orvalho matutino
as corolas recebem a luz 
remanescente do sol que raiou 
no dia anterior.

Debruço-me sobre o leito
onde as águas escorrem fugidias
e embriago-me na doçura
das madrugadas frutificadas
antes do corpo se tornar deserto.

Sustenho os aromas 
e na pele desenho um belo roseiral
fruto das estrelas 
que teimam iluminar-me o pensamento
sempre que em desalento
olho para a vida
como quem está farto de esperar.

E prestes a desesperar
com o meu olhar sofrido
acabo por constatar
que o jardim, continua, florido.



(eu)

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

[Re] Nascer






Olhei para os olhos da minha alma
e consegui conservar a lucidez.
Percorri espaços entre sóis e luas
furtei-me às trevas e de uma só vez
dependurei-me em laivos de luz.

Sob os meus pés adivinhei a morte,
porém vi-a passar adocicada pelos frutos
que me saíram do ventre no dia
em que me debrucei sobre as pétalas caídas
do roseiral da humanidade.

Por isso podes crer-me:
o (e)terno acontece 
sempre que te frutificas 
em lençóis de aromas
regados com os pingos do teu sangue.

Como se o voo da águia te dividisse o corpo
para que nunca mais te sentisses só.

Um dia regressarás ao pó
E bendirás aquele em que nasceste.

Num sopro Divino completar-te-ás
e saberás porque vieste.

(eu)

domingo, 14 de outubro de 2012

Nas Asas do Sonho



As aves voltaram a migrar
sinto-lhes o grito sofrido 
sempre que tentam 
invadir-me o poema.

Descem do norte 
com rumo a terras 
aquecidas 
onde vão procurar a sorte
ou um fonema 
a rimar com morte.

Rebentaram durante a noite 
sobre o mar.
Sem saberem que já não vivem
continuam a voar. 

Exaustas rasgam o vento
[impunemente]
e eclodem dos céus
ao som lacrimoso
de um réquiem 
entoado por um velho
stradivarius.

E por motivos vários 
bendizem a vida que lhes deu asas.

(eu)

sábado, 13 de outubro de 2012

Segredos Guardados



Há sempre um tempo qualquer
em que as palavras me fuzilam a alma
e assim caio em mares de água virgem
onde as conchas os búzios e as quilhas
do recuo das marés, me beijam os pés
e me elevam nas vagas dessas águas 
Em que meu sangue se dilui adormecido.

Sigo no segredo dos mares
qual gigante cantado por Camões
consumo-me nas águas límpidas das canções
de ninfas desabrochando em botões de rosa.

Filhas de Zeus nesses mares secretos
ondulam-me o peito em cantares de amor
Soam ecos de palavras consumidas na boca
sem saber se este calor que de mim brota
é poesia ou poema escrito nos desertos
Desta alma que se desalma como louca.

Agarro-a sem saber se me pertence
não quero perder a alma antes de morrer
nem sequer deixar palavras por escrever
mesmo fuzilada em mares de amores.

(eu)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Silêncio


Inútil
silenciar palavras presas
na garganta.

Imerecidos
são os momentos
de silêncio


suspensos na languidez 
de uma língua 
quase inerte.

À sombra 
do terrifico medo
que nos sufoca 
na espera de uma morte
suave
em noite de luar.

Essa certeza
que inutilmente 
nos amordaça.

Até ao dia
Em que inevitavelmente
virá
para sempre
nos abraçar. 

(eu)

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Ausência




Sinto 
em cada palavra
a ausência sombria
da poesia do teu corpo 
a delinear-me o pensamento.

Entro em mim 
e vagueio por lugares
repletos do teu silêncio.

Onde estás amor?
Que já nem reconheces 
a minha voz.

(eu)

Lágrimas Poéticas


Serena é esta alma errante
à procura de uma página onde
se possa escrever.

Distante é este cantar
declinado sob uma vida descrita
com a suavidade de uma pena.




Hoje não me vou alongar:
não preciso da cor do papel
nem da força do gesto
nem tampouco 
da intensidade do olhar.

Deixem-me apenas vaguear 
Nas asas do vento mesmo nas noites
Em que não houver luar.

Talvez assim eu adormeça
neste baloiçar tardio
em que de saudade 
a minh'alma entorpeça.

E em sonhos por sonhar
viverei na ilusão
de que a Poesia foi a razão
porque a vida me fez chorar.

(eu)

domingo, 7 de outubro de 2012

Sem Tempo



Talvez eu hoje
até te escrevesse 
um longo poema

Mas ficava sem tempo 
para escrever
o que tenho para te dizer:

Nas asas do vento 
chegou-me um aroma
a flor d'Oriente.

Vindo desse deserto
tão perto
do oásis da minha
(in)existência.

(eu)

sábado, 6 de outubro de 2012

Autobiografia



Sentia-se perto do céu
como poderei dizer?
Havia uma luz que a cegava
e um sentimento intenso
que nela se frutificava.

Ao longe estava a porta 
que ninguém conseguia abrir.

De olhos perdidos no vazio
quase clandestinos
sentiu a dor da terra
que a vira nascer.
Os lábios húmidos tremiam-lhe
enquanto nas palmas das mãos
árvores da vida começavam a crescer.

As portas secretas 
abriram-se inesperadamente
num convite implícito
De regresso às origens.

E foi assim que começou a escrever.

No repouso silábico
da sua existência calma
incansavelmente escrevia a alma
calada.

Aves pousaram-lhe entre os dedos
freneticamente febris
dos poros inflamados do tempo
em que viveu 
silenciada.

(eu)

domingo, 23 de setembro de 2012

Insanidade Poética



Insanos são estes versos que te abraçam
como incenso purificador
em catarse da minha existência. 

Ajoelhado como quem ora 
vejo em teu rosto desenhados os traços 
de uma réstia dependurada de luz.
Deixas resvalar as mãos
sobre as pernas ainda dobradas.

E em vénia curvas-te um pouco mais
sobre meu corpo distraído quase esquecido
balbuciando palavras que te crescem
na boca húmida e selada e que florescem
sem coragem para as dizer.

É então que as minhas mãos se estendem
em voo de ave 
e nelas vejo inscrito o poema.

Finalmente ouço-te pronunciar o meu nome.

(eu)

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O Grito da Lua



Na memória guardo o grito da lua!
Inquieta
debruço-me sobre a espuma branca
dos dias azuis
antes que seja anunciada a morte
dos pássaros
que se suicidaram ao anoitecer.

A lua acendeu-se no vazio.
viram-se sombras desumanizadas
despojos que sobraram do nada
esvaziando seus ventres
arredondados e cheios 
de matéria incandescente.

Rebentaram junto ao mar
e nesse mesmo momento...
a lua gemeu, gritou e pereceu.

Na memória guardo o grito da lua!

(eu)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Força do Silêncio



Nada é mais cruel
que esta força 
a silenciar-me a voz,
a prender-me os dedos 
arrastando pequenos pedaços de luz
colhida pelos meus olhos

[desconstruindo-me o olhar].

Nada é mais cruel
que o silencio do meu coração
sempre que as palavras crescem 
e a boca foge-me
sem vontade de as dizer

[na imutabilidade do sonho].

[Lentamente me desconstruo]

e os pássaros nocturnos 
tomam conta do meu voo:
desalinham-me os versos
conduzem-me 
para campos ensanguentados
em que cada vez mais
me dou conta:
da brevidade das estrelas.

(eu).

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Desdita



Adivinho 
as lágrimas em que te diluis
sem esperança, sem fé 
e sem perdão.

Adivinho 
teu corpo curvado no chão
com fome, sem nome
e em tormento.

Ruiu aos pés do desalento
num gesto solitário
que nada mais é 
senão: 

a voz do teu silêncio
propagado 
no infinito da tua dor
inesperadamente imerecido
amordaçado
sem amor.

(eu)

O Nascer da Poesia





Sempre que a poesia nasce, acendem-se as luzes do Paraíso, e, o poeta desassossegado, procura a estrela mais nobre para sobre ela pousar o olhar. Na coragem dos seus dedos, esculpe nas paredes do universo a casa onde deseja habitar. Constrói jardins floridos, cheios de rosas e tulipas que se multiplicam ao som de melodias ancestrais.

Vislumbres delirantes de uma memória universal.


(eu)

(eu)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Sempre que a Vida se Escoa


Inútil descodificar o gemido
que entontece e ensombra
uma viela desabitada.

Uma luz moribunda 
de candeeiro de rua
junto a um banco de jardim vazio.

Antes tudo tinha nome
espaço e uma razão para existir.

Hoje, há o vaguear sombrio das aves
nocturnas...
um lugar, sem lugar, sem nome.
sem coisa nenhuma.

Sente-se o silêncio
do outro lado do mundo
onde um dia o desconhecido
se fez homem e esqueceu-se

Que afinal era mortal!

(eu)

domingo, 9 de setembro de 2012

A voz do Olhar



Quisera eu amor
adormecer em teu peito
rosa brava 
corporizada em poema.

Quisera eu amor
entrelaçar-me em teus braços
nesse mar de poesia
em que a tua voz
é tão somente
a voz do meu silêncio.

Quisera eu amor
ser a tua glória
a voz de todos os teus pensamentos...

e que o lume aceso no meu coração
fosse essa luz 
que tu tão bem conheces .

(eu)

sábado, 8 de setembro de 2012

A Tentação



Teimo abrir os olhos
mesmo nas manhãs
em que o sol se esconde de mim.

Sem saber para onde vou
viajo
sem destino
silenciosamente
sem vontade de regressar.

Nunca cheguei ao cimo da torre,
a meio caminho 
olho vertiginosamente
as flores que desabrocham 
no meu jardim.

Guardada na memória
tenho uma promessa de vida.

E oiço-te implorar em prece...
o meu regresso.

(eu)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Aceitação



Subitamente, os meus olhos encheram-se de lágrimas
E o silêncio passou a habitar dentro de mim.
Ergui as mãos, saudei o sol, e prontifiquei-me
A não mais resistir a vozes de comando
Que persistem ceifar-me os pés, enquanto
Nascem rosas bravas nos campos, pintalgando-os
Com a cor do meu sangue que se esvai.

Prometi a mim mesma, deixar meus despojos, 
Junto à porta daqueles que ambiciosamente me obrigaram 
A eclodir como vultos negros numa noite de pesadelo.
Os astros adormeceram e eles persistem 
Em tornarem-se donos das estrelas.

Os corações colapsaram e das entranhas dos homens
Saí o vómito ensanguentado
Necessário a serenar a dor...
Compulsivamente a ânsia aumenta....

E as vozes dos carrascos anunciam o derradeiro silêncio...

(eu)

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Morte Lenta




Há um lugar onde as aves se juntam para morrer,
Sem ruído, na limpidez de um silêncio que se faz ouvir
Em música suave, apropriada ao terminus da vida.
Todos os outros sons seriam desnecessários:
Ficariam silenciados pela imensidão do momento.

O rumo é para poente.
É lá que se preparam para a morte
(Mesmo aquelas que costumavam voar para norte).
É um lugar no espaço que as aguardam na noite, 
Ofertando-lhes um regaço de matéria inexistente.

Tudo é ilusório e desconexo.
Os rostos desabitados sem expressão
Sentem o peso dos dias em que lhes faltaram, 
Não sete palmos e meio de chão
(Que é a terra que um homem necessita),
Mas dois pedaços, onde não conseguiram pousar os pés.

E por isso se fizeram aves,
Para suportarem a impunidade da sua morte.


(eu)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Consumida P'lo Fogo da Alma



Ainda não percebi 
Porque insisto em juntar letras.
Estas que me escrevem as mãos de palavras
Talvez nunca lidas ou não compreendidas
Ou quem sabe, até,
Numa gaveta qualquer
Esquecidas...

Hoje quero dizer:

Este fogo que arde dentro mim 
Devastador e revelador
[De tudo o que sobra da minha essência]
Recebi-o de um astro qualquer
No espaço em que me fiz mulher
Mergulhando num mar de pura inocência.

Ainda assim, quero continuar: 

A tentar o céu descodificar
Aquele que me fecundou o ventre
Das mais belas e raras estrelas.
Ampliar o horizonte alcançado p'los meus olhos
Saber porque razão o universo se expande
E de quantos sóis 
Recebi o fogo que arde dentro de mim.

Não vivo em busca do tempo perdido
Nasci para alcançar o fim do tempo
Na explosão total da minha própria existência

Pergunto então:

Será de luz de fogo feita a minha essência?

(eu)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A Carta



Assim seja o tempo infinito em nossos corações,
Assim seja o espaço uma distância ilusória
Esvaindo-se do corpo e da memória,
Daqueles que semeiam vagas ilusões.

Sorvia-te com saudade em beijo sedento d'amor,
Sempre que o sol me fugia para outro lugar
Sonhava-te trespassando meu corpo em punhal de dor,
Na ausência forçada desse teu doce olhar

Nas mãos caiam-te flocos brancos de neve
Acariciavam-te a pele, entristeciam-te o coração
Numa promessa feita quase oração.

Cumprida foi no infinito de um tempo breve
E mais tarde juntos nesse mesmo lugar
De olhos postos nos teus, os meus viram nevar.

(eu)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Reconstrução de Mim



Sinto em gemido a percorrerem-me o corpo
Palavras que não se calam e me atormentam
Como se se quisessem eternizar no tempo.
Entoam em raios de sol na permanência imutável
De uma luz derramada sobre os meus dedos febris.

Solta-se a dor e fragmenta-se em pedaços
Que minhas mãos não conseguem agarrar.
Esvai-se o pensamento e meus olhos elevam-se, 
O céu abre-se  sobre o meu rosto dolorido e
Ensanguentado do tempo que o esmagou.

Tremem-me as mãos e o corpo continua a soluçar
Na procura incessante de palavras 
Capazes de reconstruirem  o mundo.

Esperança vã de momentos insolúveis
Nas águas atribuladas 
Que percorrem a imaginação humana.
Do alto recebo a luz das estrelas
Em cada dia nos azimutes do meu olhar...

Dentro de mim guardo as imagens
Que meus dedos trémulos não conseguem agarrar.

(eu) 

terça-feira, 24 de julho de 2012

A Onda



Queria eu sentir seduzir-me
Pela ideia de que tudo o que existe
Provem da explosão inicial.

Dizias tu teres-me encontrado sentada 
Na cauda de um cometa.
Aproximaste-te de mim trazendo nas mãos
O pó mais nobre colhido das estrelas.
Ofertaste-me em sorriso precioso 
A maior maravilha do universo.
Pediste-me que te sorrisse alegremente 
E levaste-me para lugares secretos 
Onde nossos corpos se tornaram unos 
Com toda a matéria existente.

Multiplicámo-nos em fragmentos de estrelas,
Pedras preciosas soltaram-se do meu ventre
E povoaram o mundo com os mais belos tesouros.
Depois, perecemos afogados em ondas de amor
Mais fortes e tumultuosas que as existentes no mar.

Porque será que o sol teima ressuscitar-nos o olhar?
Tu e eu vivemos antes do tempo,
Naquele lugar que não sabemos nomear,
Antes de tudo começar.... 
E depois de tudo acabar...

Crê-me porque te digo a verdade!

(eu)

domingo, 15 de julho de 2012

Hoje Escrevo para Ti!



Há dias em que as palavras não se cansam.
Outros há, em que a vida me parece tão longa
Que não existem mais palavras que a possam preencher.

Hoje é para ti que escrevo meu amor.
Hoje sinto que os anos passaram como uma flecha,
Sem me darem tempo para cuidar das pétalas
Que tão soberbamente guardo no meu regaço.

Deste-me tudo! desde aquela tarde 
Em que as horas passaram por mim como breves instantes. 
Senti teus olhos fulminarem-me a alma
Pressenti-te meu! 
E desde então a história foi longa.
Muito longa! 
Entrámos em todas as batalhas,
Rejubilámos de alegria sempre que saímos vencedores.
E vencemos tantas...quase todas!

Hoje, não temo o fechar das pálpebras
Nem pretendo fugir do tempo, fingindo
Que o cansaço não existe dentro de mim.

Ainda me sobram olhos para as flores do nosso jardim,
Ainda me restam sonhos que gostaria ver sonhados,
Ainda me sobejam mãos para acariciar
E um coração que já não cabe dentro de mim.

Sei-te ao meu lado, meu amor! 
Sei também o que vês no fundo dos meus olhos
Cada vez que te fixo obrigando-te a desviar o olhar.
Sei do enigma da nossa existência.
Sei das forças que se moveram na nossa união.

O dia amanhece, o sonho esvai-se...
Será sempre tua a árvore da nossa vida
Pois em tuas mãos nossos frutos jamais cairão 

E quando o sol nascer, ousa simplesmente olhar...
Perceberás então, porque vias meus olhos a brilhar.



(eu)

* Poema dedicado ao meu marido António Cebola, companheiro de uma vida...

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Para quê Falar de Amor!


Queria eu não mais voltar a falar de amor
Queria eu voar noutro universo
Em que só sentisse o aroma das flores
E em que os pássaros nascessem
Dos ventres inchados das estrelas.



Queria eu que as águas desses ventres 
Rebentassem sobre as folhagens
Corcovadas e violadas de orvalho
Nas manhãs em que o sol se recusa a nascer.

Sentindo apenas o odor da terra molhada
Endeusada em mim nas manhãs em 
Que me frutifiquei, sobre um leito de rosas. 

E porque tudo o que é desejado é cumprido, 
Dentro da tua boca consigo sentir o sabor das estrelas.
E na pele dos teus lábios, envolvo o meu corpo
Nesse céu inventado por mim.
Assim o sol nasce em cada manhã no meu peito,
Ainda quente do dia anterior.

Para quê falar de amor, 
Se afinal é do ventre das estrelas
Que tudo é parido sem dor.

(eu)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

O Caminhante



E neste caminhar lento, muito lento,
De alma cansada, percorro no sonho 
Os mais inóspitos e insólitos lugares
Nem sempre leves , nem sempre livres,
Nem sempre libertos, nem sempre felizes.

É no meio das multidões que as alas se abrem
Sem medo e sem pudor....
Afinal, nem todas as máscaras caem.
Há rostos que ficam por desvendar
Sentimentos que não se deixam sentir
E muito menos revelar.

Impedindo o caminhante prosseguir 
Em desalento o seu caminhar lento.

Resta a dor, a desilusão, o medo inabalável
De caminhar entre as alas abertas 
Por uma enorme multidão.

(eu)

domingo, 8 de julho de 2012

Pausa



...o poema teima em nascer
Das reticências que deixei colocadas
No final da minha escrita...

E neste desatino faço-me verbo.
Surjo dentro de mim em vendavais de sonhos
Invadindo todas as portas, todas as frestas,
Das florestas mais densas do meu pensamento.
É nas horas mortas que mais me atormento 
Numa procura incessante de respostas
Para tantas perguntas entrando por mim adentro.

É desalento o que a minha alma sente.
Pensava eu: a minha escrita nunca me traria dor
E muito menos desamor.
Pensava eu: palavras escritas de encantamento
Jamais levariam ao sofrimento.

Mas finalmente compreendi a força da palavra. 
Capaz de inverter o movimento giratório da terra,
Sai da boca do poeta enfeitada das sedas mais nobres
Caindo desamparada nos pergaminhos da vida. 
Onde vai ser lida apreciada e sentida.

Umas vezes contemplada ou até devorada
Outras vezes morre perdida.

No silêncio da vida, leio-me nas palavras 
Que não consegui escrever, ou então,
Naquelas que deixei morrer.

(eu)

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Eu Tinha para Mim



Eu tinha para mim,
Que não deveriamos desdenhar os afectos
Tinha para mim, 
Que os corações batendo ao mesmo compasso 
Enriqueciam a vida.
Ou melhor, eu até tinha para mim
Que a vida era o compasso de espera
Em que os corações ritmavam
E se organizavam em cadência perfeita.

Tinha para mim, tantas ilusões
Mas deixei de as ter.
Porque para mim, 
Mais vale ser, do que parecer.

(eu)

terça-feira, 3 de julho de 2012

Dias em que as Estrelas se Apagam



Pesa-me o corpo, 
Pesam-me as pálpebras
Já cansadas duma quietude tumultuosa 
E do silêncio que me persegue 
Sem conseguir encontrar um enigma 
Ou tão somente um fonema
Donde surgirá o meu último poema 

Arrefeceu-me a alma
E os sonhos que me restam
Nem sempre são suficientes 
Nem sempre são eficazes para darem 
Expressão à palavra escrita

Sobejam-me tantos sentimentos! 
Sobejam-me olhos,sobejam-me dedos 
Tudo me sobeja...
Excepto os dias em que o sol me acariciava as mãos
Em que as estrelas me visitavam
E dentro de mim crescia luz
Como um filho amadurecendo no ventre materno.

Tive o universo inteiro em minhas mãos
Quiseram os deuses entregar-me os enigmas 
Mais indecifráveis de toda a existência humana
Pus à prova o meu raciocínio lógico 
Esquecendo as teorias quânticas imperceptíveis
Aos olhos mais sábios e experientes.

Senti crescerem-me no ventre 
As rosas que me foram prometidas 
No dia em que me fragmentei em pedaços 
Da minha própria existência. 
Nelas depositei a esperança dos meus dias
Delas fiz o orgulho dos meus olhos
E desenhei um jardim onde as estrelas desciam
Nas noites em que dançavam só para mim.

E depois em espirais de luz regressavam
E nas minhas mãos deixavam toda a poesia do universo.

Utópico ou não, o poema nascia 
E o sonho crescia dentro de mim.

Ainda não sei porque razão
As estrelas se apagaram...

(eu)