quinta-feira, 17 de maio de 2018

A Vida Em Mim


Através de mim
chegam-me mares imensos,
corais, peixes,
vida em plenitude...
Um navio onde o fulgor é chama,
e uma limalha de ferro 
que me dilacera o peito.

Chegam-me dores
de uma existência diminuta,
olhos alheados 
em rios de infinitas mágoas
a mendigar ócio noutra latitude.

Chegam-me laivos 
sangrentos de despedida,
farpas soltas 
numa vida cheia de nada,
em que no sortilégio da metáfora, 
e no mistério da palavra escrita
consigo sentir-me afortunada.

Chegam-me sons oriundos 
de um mundo que desconheço,
enquanto sorvo faminta 
o pulsar do meu corpo inteiro.
E acredito ser carne 
e acredito ser gente, 
ser carne à altura do que é eterno
na morte que se demora 
a este soluçar de tédio.

Chegam-me limalhas de ferro 
embrulhadas em luz
e a obscena lucidez 
em que me detenho.



(eu)


Imagem. Laurence Winram

domingo, 21 de maio de 2017

Canto com voz Desafinada



Só aos amantes 
é permitido cantar o amor
com voz desafinada.

Sei-te senhor deste vórtice que me atormenta,
sei-te musgo verdejante nos campos da minha alma,
sei-te preclaro deste sentimento com que me vergo 
a esse corpo rutilante que me faz pequena.

Laboriosa é esta alma farta de fadigas,
não me perguntes: 
-Quem és senhora?
Que eu não sei  nada. 
E mesmo que soubesse , nada te diria,
do nada que sou me excluo por me sentir cansada .

A minha voz desafinada canta o amor do cimo,
nada tem de terreno, lascivo, ou de intermináveis loucuras. 
Sou suor e sangue que derramo por onde sigo,
pertencente ao uivo do meu ventre a apelar ao mundo,
para que todas as vozes cantem comigo.


(eu)




Imagem-Merzbach

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Impermanências


Faça-se silêncio!
o ruído é-me nefasto ao gesto

Na permanência da velha árvore
debruçada sobre a janela do meu quarto,
hoje trago-te a inconfidência das rosas
e uma asa de anjo ,
como testemunho incontestável 
da finitude do voo.

todas as pombas que circundam o céu 
se vestiram de branco
e os homens abriram a boca de espanto
à inviolável luz de esperança
que atravessa todas as impermanências.

É assim que eu me sinto
irremediavelmente exausta.inconformada .
Nenhuma lua poderá transformar silêncios
onde estes olhos cegos se entregam
ao vislumbre de breves loucuras.

Um dia todos os poetas estarão mortos
e a mudez das almas 
será caricia apenas no coração das aves.



(eu)




Imagem- Lauri Blank

quarta-feira, 22 de março de 2017

Havemos de Falar


Peço perdão 
à sindicância das palavras:

Havemos de falar de amor, 
e de rios que correm para horizontes longínquos...
havemos de falar das estações, dos ventos , das chuvas,
dos poemas de despedida e das memórias sem retorno.

Havemos de falar de tanta coisa, 
no dia em que resolveres desobedecer 
a esse silêncio atroz onde te mora o pensamento.

Se houver inutilidade nas minhas palavras,
que se calem os ventos, que se desarrumem os mastros 
e eu passarei a viver alheada neste barco de emoções...

Pobres de nós os justos , os tementes a Deus .
O amor é assim mesmo: será sempre código por decifrar
na espuma dos dias, em que numa roda de fogo
se vão apagando os meses e os anos...

Havemos de falar de tanta coisa ...

Quando a minha voz não passar de um eco 
na luz da tua memória...


(eu)

Fotografia- Jaroslav Monchak