domingo, 10 de fevereiro de 2019

Menina da Minha Alma




Desde o tempo em que as anémonas floriam

e os arco-íris se escondiam de mim

em águas profundas

boicotando-me o olhar,

deixei-te  sentada num banco de quintal

naquele poial de pedra parda ,

onde dia a dia crescia a tua inocência.



Pensei que te perdera nas estações da vida

e recreei-te alegre

na tristeza que te conhecia no coração,

menina da minha alma,

sentada nesse banco de pedra fria

onde os sonhos te foram negados

e a esperança mascarada por vãs tempestades.



Sobreviveste a todas as intempéries

e afirmaste-te inteira sobre saltos de mulher.

Na inocência em que permaneceste,

floriste em rosa, em jasmim, em duas camélias.

Sorrindo criaste o teu jardim, e dele continuas cuidando

como no conto de Voltaire.





(eu)


quinta-feira, 17 de maio de 2018

A Vida Em Mim


Através de mim
chegam-me mares imensos,
corais, peixes,
vida em plenitude...
Um navio onde o fulgor é chama,
e uma limalha de ferro 
que me dilacera o peito.

Chegam-me dores
de uma existência diminuta,
olhos alheados 
em rios de infinitas mágoas
a mendigar ócio noutra latitude.

Chegam-me laivos 
sangrentos de despedida,
farpas soltas 
numa vida cheia de nada,
em que no sortilégio da metáfora, 
e no mistério da palavra escrita
consigo sentir-me afortunada.

Chegam-me sons oriundos 
de um mundo que desconheço,
enquanto sorvo faminta 
o pulsar do meu corpo inteiro.
E acredito ser carne 
e acredito ser gente, 
ser carne à altura do que é eterno
na morte que se demora 
a este soluçar de tédio.

Chegam-me limalhas de ferro 
embrulhadas em luz
e a obscena lucidez 
em que me detenho.



(eu)


Imagem. Laurence Winram

domingo, 21 de maio de 2017

Canto com voz Desafinada



Só aos amantes 
é permitido cantar o amor
com voz desafinada.

Sei-te senhor deste vórtice que me atormenta,
sei-te musgo verdejante nos campos da minha alma,
sei-te preclaro deste sentimento com que me vergo 
a esse corpo rutilante que me faz pequena.

Laboriosa é esta alma farta de fadigas,
não me perguntes: 
-Quem és senhora?
Que eu não sei  nada. 
E mesmo que soubesse , nada te diria,
do nada que sou me excluo por me sentir cansada .

A minha voz desafinada canta o amor do cimo,
nada tem de terreno, lascivo, ou de intermináveis loucuras. 
Sou suor e sangue que derramo por onde sigo,
pertencente ao uivo do meu ventre a apelar ao mundo,
para que todas as vozes cantem comigo.


(eu)




Imagem-Merzbach

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Impermanências


Faça-se silêncio!
o ruído é-me nefasto ao gesto

Na permanência da velha árvore
debruçada sobre a janela do meu quarto,
hoje trago-te a inconfidência das rosas
e uma asa de anjo ,
como testemunho incontestável 
da finitude do voo.

todas as pombas que circundam o céu 
se vestiram de branco
e os homens abriram a boca de espanto
à inviolável luz de esperança
que atravessa todas as impermanências.

É assim que eu me sinto
irremediavelmente exausta.inconformada .
Nenhuma lua poderá transformar silêncios
onde estes olhos cegos se entregam
ao vislumbre de breves loucuras.

Um dia todos os poetas estarão mortos
e a mudez das almas 
será caricia apenas no coração das aves.



(eu)




Imagem- Lauri Blank