sábado, 13 de dezembro de 2014

Levanta-te e Anda...



Tens o mundo a teus pés mulher! 
levanta-te e anda...
Usa as luas que trazes nos olhos
para te iluminarem o caminho.

Soberbo é esse manto que se estende 
nas malhas da noite,
cobrindo o ar
as lágrimas de chuva, o vento norte.

Larga a morte ao seu destino
e não deixes que o  luto te ensombre a vida.

Veste-te com a purpura das papoilas
que nos campos nascem aos molhos
e nunca te dês por vencida.

Merece-te  mulher!!


Merece-te... renascida.


(eu)

Fotografia- Alfred Cheney Johnston

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Impermanências


Como adiar o sonho
e amar-te mais tarde
quando o sol for mais brilhante
e o amor esse grito assombroso
de liberdade.

Como adiar o rebentar das ondas
sempre que te estendo os braços
de corpo nu 
pronto a receber o mar 
só para amar... só para amar...

Como adiar o que é infinito
se o meu corpo já sem arte 
sucumbir no tempo
e não tenha conseguido 
amar-te....apenas, amar-te...


(eu)

Fotografia- Alfred Cheney Johnston

sábado, 15 de novembro de 2014

Duplamente Abençoada


Há precisamente 24 anos, fui duplamente abençoada. 
Fui mãe pela terceira e quarta vez.
....
o aroma ficou mais intenso,
e o jardim mais colorido,
e o sol mais brilhante,
e o nosso sonho mais florido
....
Parabéns , queridas filhotas: Teresa e Beatriz. Que a vida vos seja sempre esse jardim repleto de cores e aromas...onde o sol brilha dia e noite.

Beijinho, com todo o Amor do mundo.




domingo, 9 de novembro de 2014

Parabéns para Mim



Há cinquenta e seis anos, também era Domingo.
Às três horas e quarenta e oito minutos - hora registada minuciosamente pelo pai- uma criança nascia, num quarto de uma casa , numa rua da cidade de Faro.
Era uma menina. Furaram-lhe as orelhas e chamaram-lhe Cristina.
Era eu.

Estou grata a Deus pela vida. Estou grata à vida por estes anos sem percalços.


Estou grata à minha mãe Celeste, por me ter posto no mundo, por me ter criado e cuidado com zelo.

Estou grata ao meu pai Manuel, por me ter feito sentir o poder do amor durante os 28 anos que estivemos juntos, por me ter mostrado o significado do carácter, da integridade e dos mais altos valores de um ser humano.


Estou-lhes imensamente grata, por me terem indicado caminhos, e, feito de mim, a pessoa que sou hoje.



Estou grata à família que criei: ao meu marido António, que comigo partilha muito mais que a vida, comigo partilha o Ser, há quase trinta e três anos, estou grata à minha filha Ana, estou grata ao meu filho António, estou grata à minha filha Teresa, estou grata à minha filha Beatriz , por todos os dias colorirem e perfumarem o jardim paradisíaco onde caminho, por darem sentido a este percurso, e, por serem a força que impulsiona o meu sorrir.



Estou grata a tudo e a todos, porque tudo e todos, fazem parte da minha existência...



Estou grata a esta menina que habita em mim, que me faz ver o mundo colorido, que acredita que o sol só se esconde para dormir, e que as fadas existem nos bosques...



Parabéns para mim, porque sim, e porque mereço...



(eu)

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Sem Titulo, mas com o Coração...




Foi neste lugar, que comecei a publicar o que ia escrevinhando, já lá vão uns quantos anos.
Neste lugar conheci amigos que, mesmo na virtualidade me conseguiram encher o coração.
Muitos foram os que chegaram sem avisar, e nem tantos os que saíram. Outros porém, permaneceram à porta, talvez por mau feitio meu.
Apesar do balanço ser positivo, dou comigo a pensar que não consigo; por uma questão de gestão do meu tempo, dar reciprocidade à interação que de uma forma muito carinhosa, recebo sempre que por aqui passo. 
Portanto, se não me virem nos próximos tempos, já sabem que é apenas cansaço, e que o apreço e consideração que tenho por todos continua inabalável.
É com muita gratidão que me dirijo a todos vós, que abrilhantaram os meus escritos durante os últimos anos, incentivando-me a escrevinhar as minhas emoções mais profundas, com o carinho da vossa leitura e da vossa presença.


Mas agora, só por um bocadinho, vou ali ver o que se passa lá fora...

Talvez um dia volte a voar com os pássaros...


(eu)

Imagem- Google



segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Laços



Este não sei quê, sem nome sem lugar,
esta sensação de não ser vista,
este sentimento que me habita 
de não pertença, 
este não merecimento da terra 
ou da nascença, 
não serão motivo  para que desista.

Talvez não seja terrena a minha fortuna,
na veemência lasciva com que liberto a dor,
tornando fecundo  este pacto de amor...

Liberta estou do que me aprisionava,
sem saber porquê me emaranhava em laços,
que me despiam a carne e me prendiam os braços...


(eu)

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

21 de Agosto de 2014


Para ti, hoje no teu dia e sempre, muitas Felicidades...
Parabéns por mais um ano de vida, em harmonia, saúde e comunhão de afectos. Nossos, muito nossos...!



Nasceste numa tarde de sol. E eu, muito pequenina, ainda só via o interior do útero materno. Mas o meu coração já pulsava por ti.
Vieste preparar o mundo para que não o estranhasse à chegada quando nascesse. E deixaste-me como sinal, uma passadeira florida de anos verdejantes, que percorri copiosamente em direcção à imensa estrela azul.
O mesmo ano nos acolheu e prometeu uma vida longa e plena, neste pedaço de terra fértil, onde hoje vemos amadurecer os frutos que plantámos com seiva cristalina de um amor que enalteceu todos os horizontes, como sopro de uma vida.
Demorámos dezanove anos para nos encontrarmos . Até que um dia, um flash luminoso nos cruzou os olhares e vimos a estrela prometida... há muitos, muitos, anos luz.
Tantos são já os dias azuis que se seguiram à expansão cósmica na escala do tempo da nossa consciência.
Será que ainda questionas o tamanho do meu amor?
É do tamanho de tudo o que existe, ou talvez do que não existe, mas que tu podes imaginar...quem sabe, do que tu nem sequer imaginas, ou talvez ainda um pouco maior: uma extensão da estrela azul no infinito do teu olhar...

Afinal sou tudo aquilo que sentes em mim...

Ou apenas: 

Sou-Te! 

Agora e sempre...



(eu)

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Horas Desmarcadas



Eram 17:05 e não estavas lá...

Ceguei porque não te vi 
e segui com os olhos em linha recta 
os ríctus das máscaras que viajavam sonâmbulas
embaladas pelo som metálico dos carris.

Ensurdeci porque não te vi 
e permaneci em pé
sobre a plataforma móvel entre duas carruagens.
Os pés desalinhados buscavam os teus,
procuravam-te para que permanecesses.

A ausência do beijo às 17:05
o tempo sem tempo às 17:05 
todos os relógios me ignoraram sem pedir licença 
hoje, às 17:05....

Passei a língua pelos lábios que se mantinham entreabertos
e cristalizados por não conseguirem falar....
- passava pouco das 17:05-

Emudeci, porque não te vi
Atraiçoada por um amor que me fez diminuta 
viva num corpo desabitado de carícias quando eram 17:05,
em imagens que falharam quando tudo parecia perfeito
e me obrigaram a vestir este olhar de desgosto. 

Apenas porque hoje, nenhum relógio marcou 17:05




(eu)


Imagem- Frederico Erra

António Cebola (piano) - Festival de Sintra- 2014 - Concerto nº 2 de Rachmaninov



sábado, 28 de junho de 2014

Há Silêncios que não devem ser Interrompidos....o Ruído não faz parte da Consciência Pura...



Esta aflição de ser sem saber se sou,
essência materializada em palavras que não sabem dizer,
coração em ebulição na aspereza das chamas
que convulsionam uma vida a derreter-se em ondas sublimes
onde o naufrágio se adianta.

Alevanto-me no desespero e em desapego de circunstância,
reconstruo-te mais uma vez em ilusão da minha mente
e deixo-me morrer colada ao corpo que imagino teu.

Extremada fui, sem saber quem era...
Insistindo perdoar-me, sendo apenas inocente....



(eu)

Imagem- Frederico Erra

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Saudade



Há vinte sete anos, uma pomba branca voou até ao céu e acendeu-se uma estrela.
Breve foi o tempo em que estivemos juntos nesta dimensão, pai!
Mas contigo aprendi, a multidimensionalidade do amor...


Grata pela vida, e...continuo a amar-te.


(eu)
                                                                               


terça-feira, 6 de maio de 2014

Afinar dos Relógios



Há horas afinadas no tempo, quando os relógios tocam todos a mesma melodia. 

E eu, que nem sei cantar, entro em cena, trauteando aquela opereta que tu tanto gostas.
É a única forma que tenho de me fundir em ti, para que a tua pele me cubra de musica
e me faça sentir o vibrar das cordas de onde saem todos os sons.

Até poderia não ser assim, mas eu quero que seja. E será até ao bater das palmas.

Depois daremos as mãos e juntos acertaremos a hora a todos os relógios. 
A cada um deles daremos um espaço no tempo(?), para que possamos  preparar o próximo recital.

Hoje pensei acordar-te, enquanto sonhavas com aquela peça a que não chegámos a dar um nome,
nem sei porque não o fiz, talvez o faça amanhã . Amanhã - é sempre um bom dia- .

E os relógios precisam ser afinados todos os dias, tal e qual os instrumentos de uma orquestra
antes de o espectáculo começar.

Hoje, apenas quero dizer-te que te amo.

(eu)

domingo, 27 de abril de 2014

A Falar de Amor



Já nem sei, quantos degraus subi 
Já nem sei, em que esquinas me demorei
nem os sóis que sem querer apaguei
ao longo - de um longo - caminho que percorri.

Onde estais, que não ouvis a minha voz?
em que lugares ela se perdeu de tanto se afirmar?
cantando com os pássaros canções de embalar.
em noites rumorosas de vento veloz.
:
:
:

Eu sei! 
Talvez os meus sonhos tenham amarelecido
ou as minhas palavras tenham perdido 
a doçura pueril das pétalas virgens 
adormecidas no meu corpo. 

Espera! 
Só mais um pouco,
Ouve-me!
eu só quero falar de amor...
deste amor com que te dou o sangue a beber
desta febre que exalta palavras que não sabem rimar
deste fervor com que me atrevo a juntar letras 

Apenas para falar de amor:

Desse rio, sem margens, sem terra, sem luar,
sobranceiro de todos os lugares 
ocultados, esquecidos, sem véspera nem amanhã.

[Como se o amanhã existisse sempre, e as palavras 
pudessem esperar o momento de serem libertadas].

Por isso eu quero que saibas:
Tudo o que escrevo
é o que a boca não sabe dizer, 
com o tom desafinado da minha voz,
em uníssono com as melodias do coração.

Por isso, 
subi a este lugar elevado, sagrado
para te falar de amor
para que somes às tuas memórias 
o que eu perpetuo nas minhas 
sempre que me apetece 

voar com os pássaros

(eu)

Imagem - Igor Voloshin

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Anda, Vem Comigo




Há um lugar no infinito, onde todas as coisas começam. 
Como aquela luz que se acende no coração, sempre que trespassas o meu corpo.
Depois, olho-te com o meu olhar agradecido e espero o beijo que antevejo desenhar-se nos teus lábios.
Só assim poderemos juntar-nos aos pássaros, e em voo planado atravessarmos todos os vazios.
Existem abismos que não se conformam com esta fusão mais ou menos nuclear dos avessos. 
Mas eles tocam-se em todos os pontos onde se inicia a vida. Ou o brilho da luz.

Anda, vem comigo!


(eu)


Imagem - Igor Voloshin

domingo, 6 de abril de 2014

Gritos de Amor



Hoje grito-te o meu amor
meu homem
meu príncipe 
meu amado
meu amante 
ladrão errante 
deste coração dilacerado

ah!,...como eu te amo!

Bebeste-me o sangue
o fel
a saliva
a linfa
tudo o que em mim havia 
contigo foi partilhado.

Caíste a meus pés e idolatraste-me
como deusa
entregaste-me o corpo
e eu beijei-te 
os olhos
os lábios
o peito
o ventre 
e em troca dei-te o meu poema.

ah!,...como eu te amo!

Desfolhaste -me 
os versos 
trocaste as letras
inverteste as sílabas
sugaste-lhes a alma 
tão ávido estavas 
das minhas rimas.

ah!,...como eu te amo!

No meu livro em branco 
deixaste sementes da tua poesia
quiseste-me nua
despojada
sensitiva
airosa 
e num acto de amor
escreveste um poema
chamado
Vida. 

ah!...como eu te amo...

(eu)

Imagem- Darren Hopes

domingo, 30 de março de 2014

Lançamento da antologia poética "Poesia sem Gavetas", parte III




Para todos os amigos que não puderam estar presentes, mas que estiveram de coração, deixo um bocadinho da tarde de hoje, agradecendo o apoio e as mensagens carinhosas de encorajamento que por uma ou outra via me dirigiram.

Beijinhos para todos*



video



                                                                             









segunda-feira, 17 de março de 2014

Fora de Tempo



Não podia imaginar sentir-me assim: quase enlouquecida, entre a nascente
que brota silenciosa do lado esquerdo do meu corpo, e o seu oposto.
Aquele que se quer mulher, que se veste de matéria coberta pela maciez da pele,
pelo perfume do beijo, pela suavidade dos lábios que impulsionam o desejo.

Continua em mim este frescor com que tão bem nos amamos, meu amor.

Gosto de acreditar que todas as palavras são fruto, ou seiva, deste abençoado bem querer.
Deste estado em que presumivelmente a minha alma se detém, para anunciar significações de outros tempos, daqueles em que nenhuma matéria orgânica se interpunha entre nós.
Nenhum desejo era necessário à fluidez da vida que emanava de uma fonte circular a rodar à volta de um eixo.
Hoje, neste lugar, não sei como moldar ao corpo estas sensações (tão bonitas), mas por vezes descabidas, desprovidas de senso comum. Ou apenas fora de tempo.
De um tempo que me parece real, mas onde os ventos tocam melodias diferentes:

O tic-tac de um relógio.
Tu e eu, e um só ponto. 
Um só sentir. 
Um único movimento vibratório.
Uma função matemática.
Um conjunto imagem.

Talvez um planeta 
- a que chamam - 
"Terra".

Talvez...

(eu)

Imagem- Igor Kozlovsky and Marina Sharapova

domingo, 9 de março de 2014

A Corrida da Felicidade


Correu, 
como se quisesse alcançar o céu, 
como se o corpo fosse um fragmento de luz 
desprendido do lugar 
onde lhe prometeram ser sol
ou quem sabe, luar.

Correu tanto, 
que a alma lhe tremia 
sem forças para regressar.

Dentro de si transportava amor
e um coração cansado de tanto amar
e negar 
a dor que lhe doía. 

Não sucumbiu a feridas, 
a medos, a desencontros
nem tampouco à fúria das tempestades
que lhe caiam nos ombros.

Não protestou, 
não reclamou, não traiu, 
mas também não desistiu.

Aninhou-se nos escombros, 
onde permanece sorridente
a dizer-se feliz.




(eu)


Imagem - Igor.Voloshin

segunda-feira, 3 de março de 2014

Ponto Luminoso





Ainda há em mim uma réstia de sangue que me aquece a vida.
Há uma artéria azulada, onde a paixão habita, mais ou menos a dois terços e meio do espaço que vai dos lábios ao coração.
E o beijo, é a luz a iluminar o caminho como sol que se expande penhasco abaixo, em direcção ao rio. 
A poesia é o ponto luminoso situado exactamente ao centro da língua, que impulsiona o desejo pelo poema pousado em mãos grávidas, cujos dedos ignóbeis - diria até perversos- consumidos pela impotência 
impunemente imposta pela razão, cortam as asas ao voo, e deixam os versos caírem no chão. Abortando-os. Matando-os,
um pouco antes do momento em que pudessem nascer. 
E assim, cessa o desejo que alimenta o poeta. 
No auge do seu momento inspiratório desfalece, sufocado pela réstia que ainda lhe sobrava de ar ou sangue.
E prontifica-se a reinventar-se num outro qualquer lugar.

***

Ao centro da língua , 
renasce-me um ponto luminoso. 
E na boca, uma artéria azulada, 
por onde flui o sangue 
que me impulsiona a vida.

(eu)


Imagem - Tatiana Parcero

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Transpondo Margens



Contra a loucura da minha pele, anuncio-me à vida e torno-me Pedra Filosofal.
Bendita mistura alquímica, entre um pedaço do meu corpo e o seu avesso.
Há uma parte que me arde, como gotas de álcool em ferida aberta. 
Há uma parte que flutua, entre duas margens impostas pela vida, ao voo dos pássaros.
Mas a outra, a que se diz ser (eu), transborda, como se transportasse dentro do peito, um oceano inteiro.
Decidi por vontade unanime das minhas duas partes, deixar os pássaros sobrevoarem os céus do meu rio.
Soltei-os ao anoitecer, enquanto a lua se espelhava calma e serena sobre as minhas águas.
E a vida transbordou para além das margens que um dia, eu própria lhe impusera.
Ao amanhecer, vi sois que anunciavam a infinitude de todas as coisas. 
Ainda um pouco atordoada, juntei-me ao voo dos pássaros, unida em uma só pele, em uma só carne .
Em uma só alma.

(eu)


Imagem- Igor kozlovsky and Marina Sharapova

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Vida Para Além das Margens




O rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.


Bertolt Brecht

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Parabéns Filha

Dia 15 de Fevereiro de 1983, terça-feira, dia de Carnaval, pelas 20,35h recebi a bênção de ser mãe pela primeira vez. Uma menina linda, pesava 3,650 Kg, e chamámos-lhe Ana.


Dia 15 de Fevereiro de 1920, era domingo e nasceu o meu pai. 
No dia em que fez 63 anos, teve a enorme alegria de ser avô pela primeira vez. O presente mais lindo 
que teve na sua vida, dizia ele. 

Hoje faria 94 anos. 


Parabéns querida filha Ana...um dia muito feliz! Adoro-te!



Ainda sinto em mim

aquela nascente que se quis vida; 
ainda sinto em mim 
aquele coração quente a dizer-se agasalho.

E vejo em ti 
a influência do orvalho 
da minha carne 
na tua carne.

O sangue que corre, escorreito, 
partilhado 
em veias que se entrelaçam, 
sempre que os teus braços 
me abraçam 
e lembram, quando te colocava ao peito
e o meu ventre te servia de leito.

Ainda sinto em mim 
esta vontade em te embalar
sempre que pressinto esse teu olhar 
a inundar-me a alma
como se fosse mar a saber amar.


(eu)



Adoro-te



quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Em Viagem



Sei-te meu amor, viajante do meu corpo. Reconheço o delírio pungente das tuas mãos
ao tocarem-me suavemente a pele, para não me acordarem os sentidos.

É lá que escreves os silêncios de sensações descontroladas, iluminadas pelo riso do sol,
que inevitavelmente confundes, com o brilho do meu olhar.

E continuas a circular, em movimentos redondos, à espera de um sinal para que possas avançar 
à descoberta de novos mundos, de novos lugares, onde os olhos mudam de cor, e as línguas têm outro sabor.

No entanto, neste marasmo de emoções, há qualquer coisa a selar-me a boca, como se os lábios ficassem 
agrilhoados aos beijos imaginados no apalpar dos meus sonhos.

Sim meu amor! É nesta escrita metafórica, utópica e talvez estúpida, que a minha alma se solta e te autoriza a continuar 
até ao infinito, a viagem com que continuamos a sonhar.

Nunca temas o esverdeado do meu olhar, nem o desmaiar da boca, que se cala, cansada de tanto te amar...

(eu)


Fotografia- Alfred Cheney Johnston

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Missão



Desnudei-me para escrever um poema.
Abracei-me  ao ventre e agradeci ter-me sido jardim de inimitáveis flores.
Moldei os versos e mordi os lábios salpicados pela ternura desses beijos majestosos
dispersos por folhagens coloridas em tonalidades de todos os sangues.
E a vida apoderou-se de mim, vida que dei ao mundo em outras vidas, em outras carnes,
para que de igual forma colorissem outros lugares, e, deixassem testemunho do sabor 
que tem o amor.
Esse sentimento inconfundível que nos entra pela pele e se aloja no peito 
que é o lugar sagrado onde todas as coisas acontecem.
Por momentos apeteceu-me gritar, para que o mundo ouvisse este eco que trago 
alojado na garganta. Apeteceu-me vibrar, entre a impaciência instalada sem permissão, 
e a luz  escorrendo da nascente, ferindo-me as retinas como se me quisesse avisar
que o infinito também se alcança nos dias mais nublados.
Olhei em redor, e voltei a cobrir o corpo. 
Vi à minha volta crescerem árvores, repletas de frutos suculentos.
Com a mão esquerda segurei o livro da vida e erguia-o mais ou menos até ao nível do coração.
No colo caiam-me pétalas que eu acariciava com a outra mão, enquanto os lábios se fundiam,
na missão que ainda estava por cumprir .

(eu)

Imagem - Alina Mayboroda

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Num Campo de Papoilas


Nem sempre

Nem sempre a noite é clara 
deixando perceptível 
o encarnado vivo das papoilas.
nem sempre 
a voz dos pássaros entoa cânticos
onde o silêncio ainda se consome
e a luz lunar prateia os campos, 
e das estrelas saem purpurinas azuis ,
e a espuma das ondas salga a areia fina 
onde deixamos marcados os nossos pés.
e os nossos corpos.

Nem sempre

Nem sempre da janela do meu quarto, 
consigo ver a velha árvore 
a suplicar-me que se faça mutismo, 
a implorar-me o amainar dos ventos
para que, entre as minhas margens 
se contenham as águas. 
Sim as águas. 
onde vagueiam hastes perdidas, 
onde derretem fogos 
ainda por extinguir, no rescaldo dos anos.

Mas hoje,

somente hoje, 
e, desculpem-me a ousadia: 

Faça-se silêncio! 

O ruído é-me nefasto ao gesto, 
e os dedos contorcem-se
enquanto o pensamento vagueia 
entre as sete colinas desse campo 
coberto de vermelho vivo, 
tal e qual um manto de papoilas,
a afirmarem-se vida, 
e a vidraça que nos separa.

Porque hoje,

somente hoje, 
da janela do meu quarto, 
quero ignorar a ponte secular
que desaba em ruínas, 
quero enfeitar a velha árvore 
com estilhaços luminosos 
de bolas de sabão, 
quero agigantar-me e,
extrapolar-me para além do corpo, 
ou da pele,
ignorar as margens,
e quem sabe, 
tornar-me ilha, 
no cimo de uma montanha.

Somente hoje, 
deixem-me pintar de azul -as papoilas-
e apagar tudo o mais, que for dissoluto. 

Quer ao gesto. Quer ao pensamento. 


(eu)

Imagem-Alexander Dolgikh

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Julgamento



Hoje a cidade alevantou-se apavorada. 

No rio flutuava o seio de uma mulher meio coberto por longos cabelos negros, que se misturavam na seda azul colada ao corpo, do vestido que ousou usar, no dia em que resolveu entregar o corpo ao mar.

E assim navegava a náufraga, ao sabor do vento e do julgamento implacável daqueles que haviam atirado a primeira pedra. Viajava pelo caudal em direcção à foz.

Na praça principal, ouviam-se sirenes, como se quisessem interromper um percurso que ela própria ousara escolher: matar-se para não morrer!

Nos lábios azulados levava o sabor da fome de justiça, e o ventre parecia inchado de tanto sofrer.

A multidão continuava a aumentar, o espectáculo era digno de se ver . A chuva caía miudinha como se quisesse abençoar a suicida, e conceder-lhe o perdão por tamanha atrocidade. 

Havia rumores espalhados pela cidade, que mostravam bem a falta de equidade dos conterrâneos.

Afirmavam que era jovem, apesar da placidez e anonimato de um rosto cinzelado.

Houve até quem conseguisse apreciar a sua beleza, na fugacidade da pele entregue ao destino das águas.

E assim continuou o caminho, tendo como único carinho as caricias do vento e o resto dos sonhos que com ela adormeceram. 


Na manhã seguinte, o rio galgou as margens e um relâmpago abateu-se sobre a terra ...iluminando-a...


(eu)

Imagem- retirada da net

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Escuridão



Tardam em mim as vielas iluminadas, 
onde permanecem silêncios adormecidos
nos sonhos da noite.

Nenhuma lua se quer amante do vento
a soprar resquícios de outros tempos.
ou de outras horas.

Que desconforto!

Escondo entre as mãos o rosto enfadado
enquanto trauteio uma escala de dó, e 
espero que a pele se insinue 
aos dedos.

Que desilusão!

Nem um vislumbre!

E o verso morre só, 
desiludido, 
calcinado pelo atrito da mente,
na escuridão 
que se anuncia 
sempre 

que o olhar se desfaz...


(eu)

Imagem-Ida Budetta

sábado, 4 de janeiro de 2014

Escrevo-te



Gosto tanto das palavras que se estendem para além da pele.
Gosto daqueles beijos que se excedem depois das margens de probabilidades já acrescidas.
Gosto tanto quando o tempo não passa de um mero pretexto, onde consolidamos gestos que pensávamos gastos.
E assim, nas águas do meu rio, embalo os corpos, cujas mãos solitárias conseguem alcançar o infinito dos lábios!

E beijo-as!

Então... fala-me desse carinho, com que me desnudas a alma,
onde quase tudo se resume a palavras mais ou menos ilegíveis,
saboreadas sobre a minha carne.

Depois, quero saber da frialdade e placidez do sorriso desabitado,
do esforço para que o rosto não se torne granítico,
onde os beijos e os gestos ficam cristalizados.

Quero saber tanta coisa...

Mas, hoje, deixa apenas que as tuas palavras se entreguem ao desejo dos meus sonhos.
E este olhar com que te vejo, parecer-te-á agradecido
por esta história - que só tu e eu sabemos ler.

(eu)



                                                                               

Imagens- Liu Yuanshou

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Trinta e Dois Anos


Longe vão os anos
em que te encontrei
minha alma gémea 
por quem me apaixonei.

Dentro de mim fervilhava 
um coração encoberto pelo frio do inverno
aquecido sobre um leito de ternura e afecto,
onde começava uma vida que se estendia,
para te amar mais... e mais, e mais...

tu sabes:

- mais até do que podia-.

Era Janeiro e acendia-se a cor da paixão,
nas minhas rosas, no laço que puseste ao pescoço, 
e no anel dourado que colocaste na minha mão.

Passaram anos e anos de uma vida cristalina, 
edificada, afortunada, abundante:
em amor, em afectos, em sorrisos , em alegrias.

As rosas não murcharam e o jardim continua a florir,
o laço alongou-se , o amor cresceu,
mais flores nasceram, mais estrelas luziram.

-Só o anel dourado da minha mão se perdeu-.

-por descuido meu-

Não, não me esqueci dele, nem do dia em que o recebi 
sobre dois corações entrelaçados,
e de olhos embaciados pela respiração do teu beijo, 
olhei-te já despossuída do tule branco que me servia de esconderijo,

E prometi:

amar-te, amar-te , amar-te...

tu sabes:

-amar-te sempre, amar-te mais,
e fazer do amor o meu (e)terno regozijo-

Agora preciso procurar o anel dourado,
nos labirintos do poema,
pois só assim, ouvirás a voz do meu amor, 
e deixará de fazer sentido o eco inaudível 
de alguma presumível dor.

Então... de dedos despidos e corpo nu, 
como as aves que sobrevoam os céus , 
em busca dele voarei,

minha alma gémea
por quem me apaixonei.

(eu)

Fotografia: Alfred Cheney Johnston