sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Desafiando a Utopia



Partimos, 
como se não houvesse amanhã 
em direcção à luz do sol fervente
sufocados pelo ar.
Tinhas os olhos tristes e empoeirados, 
na garganta fragmentos cinzelados 
que te impediam de respirar.


Impulsionei-te o corpo
para que conseguisses ultrapassar 
aquela tenebrosa repleta de matéria orgânica
e lixo planetário 
a deambular por entre sombras ameaçadoras, 
enganadoras airosas 
da grande árvore de hastes venenosas, 
como cascavéis de língua pontiaguda 
e barriga entumescida, prontas a atacar.


Elevaste-te, e deixaste para longe a amargura, 
atrás ficaram cães raivosos, babados
que se atropelavam e cravavam dentes 
em carne enrubescida e desprovida
de pele que lhe servisse de armadura.


O vento transportou-nos até ao ponto sagrado, 
onde a partida coincide com a chegada, 
e a viagem é uma linha imaginária
onde podemos desenhar a eternidade.


Chegámos, 
e enfeitaste-me os cabelos 
com os primeiros raios de sol, 
naquele lugar onde a poeira parecia luzidia, 
e com a mente esvaída de qualquer lembrança
açoitada pelo véu da esperança,
fizeste-me sentir amada à luz do dia.


Não mais sentimos medo da fera desvairada,
estendemos os corpos sedentos 
sobre intermináveis estrelas 
e acordei-te de um pranto sonhado em terra molhada


Da ilusão restou : 
este desejo que em mim ficou 
de subir tão alto, tão alto,
até onde as formas se diluem, 
os sons se dissipam, 
as cores se desvanecem...


Como se tudo o que se vê lá em cima, 
não pudesse ser contado cá em baixo.

(eu)

Imagem-Lauri Blank

21 comentários:

  1. Muito obrigado por me acompanhar na homenagem à querida amiga Evanir.
    Te aguardo no próximo dia 24/09.
    Votos de excelente fim-de-semana.
    Um beijo
    MIGUEL / ÉS A MINHA DEUSA

    PS - Excelente poema! Tem que ser lido devagar, saboreando cada verso, para se apreciar em toda a beleza.
    Obrigado por partilhar.

    ResponderEliminar
  2. Cristina,
    Esse enorme sentir em elevadas formas de estar tem que continuar a ser cultivado. Sempre.

    Um beijinho :)

    ResponderEliminar
  3. "e a viagem é uma linha imaginária
    onde podemos desenhar a eternidade."
    Sim, existem relacionamentos numa viagem que transitam o eterno:
    a beleza do amor, profundidade e cumplicidade...
    A tua poesia também mora nessa beleza eterna, Cristina!
    És uma sortuda com um filho pianista, um universo de música inspiradora...
    Beijinhos, amiga querida.

    ResponderEliminar
  4. Venho agradecer seu carinho deixado no blog do amigo Miguel
    foi surpresa para mim vi somente hoje.
    Foi grande a felicidade meu coração
    agradece o carinho do qual sinto realmente
    precisando.
    Deus abençoe sua semana.
    Beijos e meu carinho.
    Evanir.
    Lindo poema !!
    E agora estou seguindo você.

    ResponderEliminar
  5. Olá Cristina!
    Que poema forte!...A exiguidade do tempo, um espaço pesado como ponto de partida,
    um caminho de pó, a dificuldade de respiração, as ameaças da viagem... A necessidade de elevação
    para a leveza da eternidade.
    Um poema em que subiste tão alto, que se torna difícil comentar.
    Lindíssimo, Cristina, e olha, fiquei "de rastos"...:-)
    xx

    ResponderEliminar
  6. Intenso e transpirante, lindo.
    Cadinho RoCo

    ResponderEliminar
  7. uma subida que se dirá uma partida a conhecer o cimo e depois uma chegada com o dever cumprido.
    sempre a tua maneira peculiar de escrever e brincar com as palavras, levando-as a bom porto.
    um beijo de admiração

    :)

    ResponderEliminar
  8. Bela viagem pelas madrugadas, por íntimos espaços, mundo pessoais, onde o corpo transgride as normas, vai além das formas, se deforma, se reforma, se contorna e se compõe. Trava um duelo leal, impulsivo, ansioso, sequioso de altitudes nunca dantes alcançadas, fatigados, saciados, entregues, vencidos os obstáculos, o banal acontecimento de sermos nos próprios. Belíssima ilustração. Abraços, poetisa!

    ResponderEliminar
  9. Olá Cristina ,

    Excelente Momento de intensidade e Poesia !

    Beijinho
    Luis Sousa

    ResponderEliminar
  10. A utopia faz parte do ser humano. São sonhos imaginários que flutuam nas nuvens.

    Felicidades
    MANUEL

    ResponderEliminar
  11. "... a viagem é uma linha imaginária onde podemos desenhar a eternidade"
    Um poema brilhante, parabéns pelo talento poético que ele demonstra.
    Cristina, tenha um bom fim de semana.
    Abraço amigo.

    ResponderEliminar
  12. Um poema muito intenso, Cristina Li e reli.
    "Da ilusão restou : este desejo que em mim ficou de subir tão alto, tão alto, até onde as formas se diluem, os sons se dissipam, as cores se desvanecem..".
    O desejo de voar até onde deixamos de ter sombra...
    Um beijo.

    ResponderEliminar
  13. OI CRISTINA!
    QUE BELEZA DE TEXTO. NOS TRANSPORTASTE JUNTO NESTA VIAGEM DE SENTIMENTOS E POESIA.
    LINDO.
    ABRÇS
    -http://zilanicelia.blogspot.com.br/

    ResponderEliminar
  14. Muita sensibilidade este texto de mãos cheias

    para lá dos azuis nos mastros mais altos

    Bj

    ResponderEliminar
  15. Voltei para ver as novidades.
    Mas li poemas mais abaixo e também gostei. A sua poesia vale a pena ser lida.
    Cristina, tenha um bom domingo e uma boa semana.
    Abraço.

    ResponderEliminar
  16. Uma viagem de sentidos.
    Intenso e belo poema.
    Beijinhos
    Maria

    ResponderEliminar
  17. Intenso, belo e profundo

    Bjgrande do Lago

    ResponderEliminar
  18. Boa tarde
    Passei pelo teu cantinho para te dar a conhecer o meu modesto espaço de poesia.
    Espero que gostes. Um abraço, Ana Pereira
    http://almainspiradora.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
  19. Oi Cristina!
    Que lindo! Tão intenso que me arrepiou a pele.
    Beijo carinhoso!

    ResponderEliminar
  20. Amiga Cristina ..
    Estou com a cabeça até meia maluquete já não tenho certeza se vim agradecer pelo seu carinho,
    por vezes acontece tanta coisa de uma só vez , que mesmo sendo bem centralizado ficamos meio perdidos .
    Obrigada pela amizade e carinho.
    Um abençoado final de semana.
    Beijos.
    Evanir.

    ResponderEliminar
  21. Olá, Cristina!
    Que bom chegar e me lambuzar no deslumbre deste poema:
    "Da ilusão restou : este desejo que em mim ficou de subir tão alto, tão alto, até onde as formas se diluem, os sons se dissipam, as cores se desvanecem..." - por vezes a inspiração vem dos céus.
    E que não se diga a ninguém desse lugar (porque talvez houvesse alguém que duvidasse...). Lindo.

    * agradeço seu carinho lá "do lado do sol".
    bjn amg


    ResponderEliminar