quarta-feira, 13 de maio de 2015

As Aves


Há um lugar 
onde as aves se juntam para morrer,
sem ruído, 
na limpidez de um silêncio que se faz ouvir
em música suave, 
apropriada ao terminus da vida.
Todos os outros sons seriam desnecessários:
ficariam silenciados 
pela imensidão do momento.

O rumo é para poente.
É lá que se preparam para a morte
(mesmo aquelas que costumavam voar para norte).
É um lugar no espaço que as aguarda na noite, 
ofertando-lhes um regaço de matéria inexistente.

Tudo é ilusório e desconexo.
Os rostos desabitados sem expressão
sentem o peso dos dias em que lhes faltaram, 
não sete palmos e meio de chão
(que é a terra que um homem necessita),
mas dois pedaços, 
onde não conseguiram pousar os pés.

E por isso se fizeram aves,
para poderem suportar 
a impunidade da sua morte.


(eu)

Imagem- Google

36 comentários:

  1. Era nesse lugar, " na limpidez de um silêncio que se faz ouvir em música suave" que eu gostaria de me juntar às gaivotas...

    Belo, Cristina. O seu sentir envolve-se com o poema desde o começo até ao final. Fez-me voar...

    Beijinho amigo.

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  2. Grata pelo seu carinho, Maripa!

    Beijinho meu...:)

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  3. Há um lugar onde findam as dores e procuras.
    Há um lugar onde o Sol aquece as peles frias mortas.
    Há uma poesia que nasce no silencio e grita belamente.

    Então eu sinto o perfume das flores de além mar Cristina,
    enquanto por cá ainda folhas caem no caminho e assanhadas pelos ventos de maio.
    Carinhoso abraço amiga e um bom fim de semana com paz.
    Bju de paz amiga.

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  4. Tão pertinente quanto solene. Lindo.
    Cadinho RoCo

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  5. um poema tocante.
    é muito bom e triste também.
    a imagem foi muito bem escolhida.
    bom final de semana.
    beijo
    :)

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  6. Não há morte nem princípio

    tudo se move

    Bj

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  7. Um poema deste blogue foi escolhido para constar no Poesia Portuguesa.
    Algum inconveniente o mesmo será retirado.
    Um abraço

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    1. A minha gratidão Poesia Portuguesa...sinto-me honrada...:)

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  8. O poente é o lugar do ocaso, e é também o local da morte em sentido figurado.
    Sempre que uma ave se vai, o nosso olhar entristece, porque também nos iremos.
    E quem gostou de voar em bando, natural que prefira o silêncio de uma morte
    acompanhada. E todos partimos, tal como as aves, para o lugar de matéria inexistente.
    Um poema belíssimo, Cristina!
    xx

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  9. Olá, Cristina.
    Lindo! O poema, não a circunstância - que a morte é triste e desconexa, seja a norte ou a poente.
    Mas, chegada a hora, gostaria de ter o instinto dessas sábias aves e saber o rumo certo.

    bom fim de semana
    bj amg

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  10. Olá Cristina ,
    "É um lugar no espaço que as aguarda na noite, ofertando-lhes um regaço de matéria inexistente."

    Frase fantástica , num Belo Poema cheio de intensidade :)
    Beijinho.
    BFS
    Luis Sousa

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  11. As aves são como nuvens que passam ! Mas, depouis regressam.

    Felicidades
    MANUEL

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  12. Agradeço que me contacte para o seguinte endereço de email: Portuguesapoesia@sapo.pt
    Obrigada.
    Um abraço

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  13. Maravilhoso poema, Cristina. As aves juntam-se para morrer ao sul. Para sul correm também os rios que sonhamos.
    Um beijo.

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  14. Absolutamente fantástico.

    Adorei. Parabéns

    Bjgrande do Lago

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  15. As aves percorrem uma infinitude, uma sublime liberdade que nos proporciona ir além do tempo-espaço,
    silenciar os ruídos internos e conectar com a música da alma e a morte é um voo atemporal,
    mas que a conexão de tudo é o amor, este viaja anos luz...

    Um poema grandioso, filosófico e muito belo!!
    Adoro ler-te (sempre)...
    Querida Cristina, quero agradecer o teu carinho (solidário) no teu emocionante e belo comentário, senti a tua emoção!
    Beijos e grande abraço de alma.

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  16. Fico sempre com a alma totalmente desperta perante os seus textos, Cristina. Este (como muitos outros) é de uma enorme beleza, tecida na profundidade das coisas. Obrigado.

    Um beijinho :)

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  17. Um poema que merece uma profunda reflexão.

    Serei ave ?


    Um beijinho

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  18. Só para lhe deixar um beijinho agradecido.

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  19. OI CRISTINA!
    COMO AS AVES, DEVERÍAMOS, VOAR PARA A MORTE.
    A BELEZA EM TEU TEXTO, EMOCIONA E NOS PÕE A PAR DO TANTO DE TEU TALENTO.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  20. A vida é uma passagem, que o final seja sempre em paz e silêncio.
    Adorei o poema e o seu blogue, meus parabéns.
    Um abraço
    Maria

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  21. Agora fez-me lembrar Fernão Capelo Gaivota! A gaivota que ansiava subir mais alto...ir mais além, céu fora .... atreveu-se e foi banida do grupo....é o preço a pagar por pensar e sobretudo ser diferente! Sonhar e agir! Porque de nada serve sonhar se não agirmos ...é o mesmo que ter asas e não fazer uso das mesmas! é preciso ter ideias e concretizá-las!
    Voltando ao poema....será que todas as aves têm a mesma sorte? escolher um lugar para partir? sem incómodos, sem ruídos perturbadores, um lugar de respeito? de paz e tranquilidade , quentinho e propício para uma viagem sem sobressaltos? O eterno descanso do Lugar Divino?
    Beijinho, Cristina!

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  22. Olá Cristina ,
    Passando novamente para reler , e para desejar um Bom Fim de Semana :)
    Abraço
    Luis Sousa

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  23. Oi Cristina!
    Que linda inspiração!
    As aves merecem um lugar especial, que só é visto na imaginação!
    Beijo carinhoso, feliz semana!

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  24. Olá Cristina ,
    Espero que esteja tudo bem , estou a sentir a sua ausência por aqui :)
    Um Abraço
    Luis Sousa

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  25. Lugares onde só o poeta tem acesso.

    Beijo

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  26. Bom dia, Cristina
    O título chamou-me a atenção - considerando que "margens" são "limites"...
    Depois de entrar, sem pedir licença, -:))) verifiquei que tenho visto comentários teus por aí... de que tenho gostado.
    Dada uma vista de olhos, concluo que tenho andado a perder poesia muito boa.
    Acho maravilhosa a imagem de as aves (?) rumarem para poente, para um lugar paradisíaco, onde encontram o fim.
    Na minha vida "alguém" acompanhou essas aves, e eu espero, de coração, fazer o mesmo um dia, e juntar-me a todas elas.

    Desculpa ter-me intrometido assim, mas não resisti.

    Votos de excelente fim de semana.
    Um beijo
    MIGUEL / ÉS A MINHA DEUSA

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  27. Passei em busca de algo mais e aproveitei e reli....

    Bjgrande do lago

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  28. Tudo é ilusório e desconexo.
    -----------
    A ilusão faz parte da vida. E as ilusões são isso mesmo, ilusões.

    Felicidades
    MANUEL

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  29. Boa noite Cristina

    Vim deixar-lhe um beijinho amigo.

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  30. Cristina, já tinha saudades de a ler, mas já vi que a excelência da sua poesia se mantém.
    Por isso, não é nada bom que fique na gaveta.
    Saudações poéticas.

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  31. Logo ao nascer começamos a voar para poente.
    E a verdade é que o desejo de voar é permanente no ser humano
    As saudades que eu tinha dos teus voos!
    Obrigada, Cristina.
    Beijinho.

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  32. Olá Cristina.
    Tudo bem amiga?
    Saudade desta pagina.
    Uma linda semana a para você.
    Abraços.
    Bjs

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