domingo, 14 de abril de 2013

Mais um Dia




Mais um dia, em que tomou consciência da inutilidade da sua existência.
Sabia-se diferente desde sempre. 
O olhar claro e ampliado com que via o mundo, começou a 
perturbá-la, pela forma simplista com que se vira obrigada a olhar para o reflexo da sua imagem.
Todos os dias lhe era pedida uma "calma" que não possuía. 
Os seus braços cansados, já sem força para abraçar as flores que lhe foram colhidas da alma, penderam ao longo do corpo. Inertes, como hastes secas... sem vida!
Sentou-se. Vencida pela inércia de um pensamento sem voz, queria apenas que a sua sombra se esfumasse.
Do olho direito sentiu escorrer uma lágrima. Nela habitava a história que não era capaz de continuar.
E assim se ia deixando diluir, em cada gota de sal que lhe chegava aos lábios, ao mesmo tempo que escrevia palavras, em tom de despedida...

(eu)

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Desespero




Talvez ela fosse guardiã de um segredo,
talvez a morte fosse o castigo mais justo 
para o seu silêncio.
Talvez até, ela suicidasse a memória
e repudiasse quem a cegou.

Tão injustamente 
tão cruelmente
lhe fora tirada a visão de todos os sonhos.

E nas mãos continuava a segurar
a insuficiência 
com que a ensinaram a olhar p'rá vida.

(eu)

domingo, 7 de abril de 2013

Há Dias Assim...




Talvez os olhos lhe brilhassem como diamantes e nos lábios se desenhasse um convite implícito, a que ele não conseguiu resistir quando ela inclinou a cabeça e o fixou nos olhos como se estivesse a inquirir-lhe a alma.
Por impulso ou não, como que atraído por uma força que só o amor pode explicar, aproximou seu rosto do dela, na urgência de a beijar.
O momento era aquele... e, só aquele...
Ela corou, surpreendida com o à vontade daquele gesto, tão genuíno e ímpar do seu amado, que por momentos esqueceu o resto do mundo, existindo para ele, apenas aquele sorriso que o trespassava.
O café soube-lhe melhor que noutro dia qualquer. Naquele instante, a sensação de plenitude foi de tal forma grandiosa, que até esqueceram o troco em cima do balcão.
Ás vezes há dias assim...em que o sol resolve aquecer-nos a alma e sentimos o corpo emergir do vazio, como uma pomba branca a sobrevoar o céu.
Ele sabe, ele sabe bem... que a dúvida dela, é sobre a cor que emana do seu olhar. Mas naquele momento ele viu mais... muito mais! Ele conseguiu ver o amor a fluir nos seus lábios, pintados com a cor da inocência e sentiu o pulsar estrondoso do seu coração.
Às vezes há dias assim, em que o mundo nos parece perfumado de rosas, tornando-nos tão imensos, que somos capazes de interiorizar todo o universo.
Quanto pode valer um café? Às vezes um sopro de vida...quem sabe...

(eu)

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Essa Cegueira Maldita




O medo arrepia a pele
alimenta-se do sangue 
e absorve todas as verdades
que não consegues ver 
diante do próprio rosto.

E porque o mal, 
continua a ser um enigma natural
da cegueira humana,
a infelicidade alimenta o ego
de quem vende os olhos,
para forjar a luz da alma

Abre os teus poros e atreve-te à vida
ou não...

(eu)

sexta-feira, 29 de março de 2013

Ela




Ela, tinha olhos cor de rosa e lábios cor de marfim. Pensavam que era deusa. E, todos os dias, lhe pediam mais um milagre. 
Sempre tentou manter o perfume do seu olhar e a preciosidade 
dos beijos que dava ao mundo. 
Só quando, dos seus poros saíram as primeiras gotas de sangue, 
se convenceram da sua natureza humana e tentaram escutar um coração que já não batia.
Aí choraram e maldisseram nunca terem tocado a sua pele. Mas era tarde. 
Ela assumira a sua divindade e entregara-se aos céus.

(eu)