terça-feira, 2 de julho de 2013

Será que Tenho Tempo?


Ainda tenho tempo!
Ainda tenho tempo para o último cigarro,
para a última gota deixada no copo de balão,
quem sabe até para o último passo de dança.
Ou então,
até poderei esperar
dentro do meu vestido vermelho 
a chegada do próximo verão.

Ah!...tanto tempo que eu tenho!
- só não o queria gastar em vão.

Afinal até nem fumo!
E parece-me que esqueci completamente
para onde queria ir.
Foi como se de repente me tivesse transformado 
numa ave que voa sem rumo,
à procura de um poiso para descansar ou dormir.

Pensando bem...
acho que vou ficar por aqui,
refastelada no sofá a contemplar
uma tela de Rembrandt que teima 
em não sair da minha frente.
E insiste incomodar-me com o olhar.

Que quererá ele de mim?
Acho que não sou o seu género,
nem tampouco sei porque razão veio parar aqui.
Entrou-me no poema inesperadamente,
só que neste momento eu preferia Dalí.
Esse sim, como que ressurgido do renascimento
devolve-me a visão humanista e naturalista 
que habita dentro de si,
no surreal dos seus sonhos...pintados.

Dou mais uma volta e,
aninho-me no meu assento.
Acendo um pau de incenso e ao som de Satie
fico à espera do tempo, um tempo só para mim.
Mas atenção! 
Ainda que dissimulada, não é minha intenção 
petrificar-me em estátua: 
mesmo que que fosse no Louvre,
-Vénus de Milo nem pensar, 
quero ter dedos para escrever e braços que saibam abraçar
-Vitória alada de Samotracia, também não,
embora com asas, falta-lhe a cabeça para sonhar 
e um olhar que sorri.
A não ser, que fosse...Psique reanimada por el beso del amor...!

Et voilà!

Afinal, parece que este olhar sonhador lançado sobre ti, 
descobriu que da última festa, sobre a mesa da sala
ainda resta um último mon cheri ...
ao lado de duas flutes vazias.

Espero-te então, dentro do meu vestido vermelho.
Será que vens a tempo? 
Ou terei de esperar até ao próximo verão?

(eu)

Imagem- Google

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Hoje Falo de Amor



Hão-de nascer estrelas e mais estrelas em tuas mãos,
e com elas farás um colar de brilhantes.
Colocá-lo-ás no meu pescoço e a seguir vais segredar-me:
- Um dia morrerás com ele, e nesse dia, à noite, todo o firmamento se iluminará;
todas os astros tomarão o seu lugar, e tu serás vento, pó e ar.
Assim será, assim vai ser...

Compreendi o enlace ofuscante do amor - disse-te! -,
Cuja luz foste capaz de colocar sobre a minha pele, iluminando-a,
- voltei a dizer-te.
E nesse momento transformaste-me em céu, ainda que não fosse o tempo;
Só então percebi o pacto que acabaras de fazer comigo!

Cada brilhante reflectia em mim o espectro da luz,
como se um arco-íris me abraçasse em aliança mensageira
simbolizando algo que se tornava eterno: sete cores, sete notas musicais,
um arauto divino, transportando nas mãos sete sóis.
Um dia morreremos e ficaremos eternos, disse-te eu!
Eu e tu...tu e eu?, perguntaste-me.
Sim! Seremos sempre dois! Sempre dois,
enquanto um de nós viver, respondi-te.
Unidos por um colar de estrelas, aquelas que tiveram de morrer
E se transformaram em pó
para que tu e eu, eu e tu, tivéssemos oportunidade de existir.

É assim que vejo o mistério...
(eu)  


Imagens- Anna Berezovskaya
                                



(eu)


                                                                       

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Talvez



Hoje as palavras saem-me gélidas
e os versos surgem descompassados 
e fora de tempo.
Nem mesmo assim consigo travar
este impulso que me sacode a alma.

Há uma inquietação dentro de mim
como se o poema quisesse saltar 
sobre vernáculos sentires.
no dilema de um silêncio em maré de luto.

Não vislumbro um único luzeiro
nesta palinódia em que me encontro.

Pesa-me o cansaço dos silêncios
em que caminho sem ruído
para não acordar metáforas
escondidas na minha própria sombra.

As pálpebras vergam-se à luz
e as estrelas da noite envergonham-se
da inactividade do meu pensamento.

Tudo se desalinha nesta pérfida dormência
em que me petrifico.

Pouso a pena sucumbindo à dor
e o poema perde a força para sangrar.

Eu juro que tentei sorrir
mas hoje, os meus versos
pediram refugio a uma sombra nocturna.

Talvez amanhã eu fale d'Amor!
Talvez...
(eu)

Imagem-Alexander Dolgikh

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Carta a Tery









[Às vezes não te reconheço, Tery!]

Mudas a voz ao mundo 
e vens dizer-me
que os meus poemas são mudos!
Eu não escrevo para falar de coisas que não gosto,
nem sequer para repetir vezes sem fim 
mentiras escabrosas
- para isso existem os meios de comunicação
social...!

Há muitos sábios que por aí andam
a fazerem-te cair no engodo de histórias
mirabolantes, 
anestesiam-te cada vez mais
o cérebro 
e tu gostas! 

[O pior é que tu gostas, Tery!]

Ah...já sei! 
Talvez eu devesse falar de política,
futebol, da novela da noite, ou quem sabe, 
...do Big brother! 
Ou então escrever uma epopeia,
qual Ilíada ou Odisseia!,
ou de Virgílio a Eneida.

[Já não há heróis, Tery...!]

Assim... o último que me lembro...
foi Vasco da Gama!
[Ah...mas esse pertence a Camões!]
Que mesmo lá no fundo do túmulo
será sempre elevado acima
das possibilidades humanas
pela coragem e sabedoria...
[Não esquecer também a valentia!]

-"Mais do que permitia a força humana,"-
assim se lia e relia... 

[Outros tempos, Tery...!]

Eu escrevo apenas desabafos
quando os meus dedos se enchem desta 
tremedeira incontrolável
nem sempre quente ,nem sempre morna
mas que me faz arder a pele e a torna 
extrapolável

É este o caminho que a minha escrita segue:
Arregaço as mangas num impulso
e pouso as mãos sobre a folha de papel
- não vá isto ser doença que se pegue!

[E tu, Tery! ...!]

Olhas-me com esses olhos devastadores
inquiridores, acusadores, como se fosse culpa minha
as cheias que nos surpreendem no verão
ou como se eu pudesse escolher
entre um tsunami ou a lava de um vulcão...

[Mesmo assim, acho que prefiro a lava:
o fogo tem mais a ver comigo,
e não é pelo signo,
não!
O meu signo é Escorpião! Água!
Que se adentra por mim em rio
como um fio de luz 
ou uma chama flutuante
numa veia mais ou menos obcecada
que me impede ficar calada.]

[Agora Tery...!] 

O que era mesmo importante saber
para que o meu poema pudesse ter estatuto,
era que temática escolher
para que não saísse mudo...

[Tchau, Tery!]

E não é que tchau 
está no dicionário da língua portuguesa! 


(eu)

Imagens - Anna Berezovskaya e Joanna Chrobak






sábado, 8 de junho de 2013

Feliz Aniversário!

8 de Junho de 2013 





Faz hoje 28 anos, também era sábado.
O dia amanhecia claro, soalheiro, talvez o dia mais quente dessa Primavera. Pelas 9:35 fui mãe pela segunda vez. Era um rapaz e chama-se António.
Um enorme beijinho de parabéns meu filho.
E muitas felicidades.

Concerto para piano e orquestra n.º 3 de Sergei Rachmaninov, interpretado por António Cebola
Acompanhado ao piano por Gonçalo Simões
1.ª parte; 2.ª parte; e 3.ª parte