segunda-feira, 3 de março de 2014

Ponto Luminoso





Ainda há em mim uma réstia de sangue que me aquece a vida.
Há uma artéria azulada, onde a paixão habita, mais ou menos a dois terços e meio do espaço que vai dos lábios ao coração.
E o beijo, é a luz a iluminar o caminho como sol que se expande penhasco abaixo, em direcção ao rio. 
A poesia é o ponto luminoso situado exactamente ao centro da língua, que impulsiona o desejo pelo poema pousado em mãos grávidas, cujos dedos ignóbeis - diria até perversos- consumidos pela impotência 
impunemente imposta pela razão, cortam as asas ao voo, e deixam os versos caírem no chão. Abortando-os. Matando-os,
um pouco antes do momento em que pudessem nascer. 
E assim, cessa o desejo que alimenta o poeta. 
No auge do seu momento inspiratório desfalece, sufocado pela réstia que ainda lhe sobrava de ar ou sangue.
E prontifica-se a reinventar-se num outro qualquer lugar.

***

Ao centro da língua , 
renasce-me um ponto luminoso. 
E na boca, uma artéria azulada, 
por onde flui o sangue 
que me impulsiona a vida.

(eu)


Imagem - Tatiana Parcero

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Transpondo Margens



Contra a loucura da minha pele, anuncio-me à vida e torno-me Pedra Filosofal.
Bendita mistura alquímica, entre um pedaço do meu corpo e o seu avesso.
Há uma parte que me arde, como gotas de álcool em ferida aberta. 
Há uma parte que flutua, entre duas margens impostas pela vida, ao voo dos pássaros.
Mas a outra, a que se diz ser (eu), transborda, como se transportasse dentro do peito, um oceano inteiro.
Decidi por vontade unanime das minhas duas partes, deixar os pássaros sobrevoarem os céus do meu rio.
Soltei-os ao anoitecer, enquanto a lua se espelhava calma e serena sobre as minhas águas.
E a vida transbordou para além das margens que um dia, eu própria lhe impusera.
Ao amanhecer, vi sois que anunciavam a infinitude de todas as coisas. 
Ainda um pouco atordoada, juntei-me ao voo dos pássaros, unida em uma só pele, em uma só carne .
Em uma só alma.

(eu)


Imagem- Igor kozlovsky and Marina Sharapova

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Vida Para Além das Margens




O rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.


Bertolt Brecht

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Parabéns Filha

Dia 15 de Fevereiro de 1983, terça-feira, dia de Carnaval, pelas 20,35h recebi a bênção de ser mãe pela primeira vez. Uma menina linda, pesava 3,650 Kg, e chamámos-lhe Ana.


Dia 15 de Fevereiro de 1920, era domingo e nasceu o meu pai. 
No dia em que fez 63 anos, teve a enorme alegria de ser avô pela primeira vez. O presente mais lindo 
que teve na sua vida, dizia ele. 

Hoje faria 94 anos. 


Parabéns querida filha Ana...um dia muito feliz! Adoro-te!



Ainda sinto em mim

aquela nascente que se quis vida; 
ainda sinto em mim 
aquele coração quente a dizer-se agasalho.

E vejo em ti 
a influência do orvalho 
da minha carne 
na tua carne.

O sangue que corre, escorreito, 
partilhado 
em veias que se entrelaçam, 
sempre que os teus braços 
me abraçam 
e lembram, quando te colocava ao peito
e o meu ventre te servia de leito.

Ainda sinto em mim 
esta vontade em te embalar
sempre que pressinto esse teu olhar 
a inundar-me a alma
como se fosse mar a saber amar.


(eu)



Adoro-te



quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Em Viagem



Sei-te meu amor, viajante do meu corpo. Reconheço o delírio pungente das tuas mãos
ao tocarem-me suavemente a pele, para não me acordarem os sentidos.

É lá que escreves os silêncios de sensações descontroladas, iluminadas pelo riso do sol,
que inevitavelmente confundes, com o brilho do meu olhar.

E continuas a circular, em movimentos redondos, à espera de um sinal para que possas avançar 
à descoberta de novos mundos, de novos lugares, onde os olhos mudam de cor, e as línguas têm outro sabor.

No entanto, neste marasmo de emoções, há qualquer coisa a selar-me a boca, como se os lábios ficassem 
agrilhoados aos beijos imaginados no apalpar dos meus sonhos.

Sim meu amor! É nesta escrita metafórica, utópica e talvez estúpida, que a minha alma se solta e te autoriza a continuar 
até ao infinito, a viagem com que continuamos a sonhar.

Nunca temas o esverdeado do meu olhar, nem o desmaiar da boca, que se cala, cansada de tanto te amar...

(eu)


Fotografia- Alfred Cheney Johnston

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Missão



Desnudei-me para escrever um poema.
Abracei-me  ao ventre e agradeci ter-me sido jardim de inimitáveis flores.
Moldei os versos e mordi os lábios salpicados pela ternura desses beijos majestosos
dispersos por folhagens coloridas em tonalidades de todos os sangues.
E a vida apoderou-se de mim, vida que dei ao mundo em outras vidas, em outras carnes,
para que de igual forma colorissem outros lugares, e, deixassem testemunho do sabor 
que tem o amor.
Esse sentimento inconfundível que nos entra pela pele e se aloja no peito 
que é o lugar sagrado onde todas as coisas acontecem.
Por momentos apeteceu-me gritar, para que o mundo ouvisse este eco que trago 
alojado na garganta. Apeteceu-me vibrar, entre a impaciência instalada sem permissão, 
e a luz  escorrendo da nascente, ferindo-me as retinas como se me quisesse avisar
que o infinito também se alcança nos dias mais nublados.
Olhei em redor, e voltei a cobrir o corpo. 
Vi à minha volta crescerem árvores, repletas de frutos suculentos.
Com a mão esquerda segurei o livro da vida e erguia-o mais ou menos até ao nível do coração.
No colo caiam-me pétalas que eu acariciava com a outra mão, enquanto os lábios se fundiam,
na missão que ainda estava por cumprir .

(eu)

Imagem - Alina Mayboroda

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Num Campo de Papoilas


Nem sempre

Nem sempre a noite é clara 
deixando perceptível 
o encarnado vivo das papoilas.
nem sempre 
a voz dos pássaros entoa cânticos
onde o silêncio ainda se consome
e a luz lunar prateia os campos, 
e das estrelas saem purpurinas azuis ,
e a espuma das ondas salga a areia fina 
onde deixamos marcados os nossos pés.
e os nossos corpos.

Nem sempre

Nem sempre da janela do meu quarto, 
consigo ver a velha árvore 
a suplicar-me que se faça mutismo, 
a implorar-me o amainar dos ventos
para que, entre as minhas margens 
se contenham as águas. 
Sim as águas. 
onde vagueiam hastes perdidas, 
onde derretem fogos 
ainda por extinguir, no rescaldo dos anos.

Mas hoje,

somente hoje, 
e, desculpem-me a ousadia: 

Faça-se silêncio! 

O ruído é-me nefasto ao gesto, 
e os dedos contorcem-se
enquanto o pensamento vagueia 
entre as sete colinas desse campo 
coberto de vermelho vivo, 
tal e qual um manto de papoilas,
a afirmarem-se vida, 
e a vidraça que nos separa.

Porque hoje,

somente hoje, 
da janela do meu quarto, 
quero ignorar a ponte secular
que desaba em ruínas, 
quero enfeitar a velha árvore 
com estilhaços luminosos 
de bolas de sabão, 
quero agigantar-me e,
extrapolar-me para além do corpo, 
ou da pele,
ignorar as margens,
e quem sabe, 
tornar-me ilha, 
no cimo de uma montanha.

Somente hoje, 
deixem-me pintar de azul -as papoilas-
e apagar tudo o mais, que for dissoluto. 

Quer ao gesto. Quer ao pensamento. 


(eu)

Imagem-Alexander Dolgikh

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Julgamento



Hoje a cidade alevantou-se apavorada. 

No rio flutuava o seio de uma mulher meio coberto por longos cabelos negros, que se misturavam na seda azul colada ao corpo, do vestido que ousou usar, no dia em que resolveu entregar o corpo ao mar.

E assim navegava a náufraga, ao sabor do vento e do julgamento implacável daqueles que haviam atirado a primeira pedra. Viajava pelo caudal em direcção à foz.

Na praça principal, ouviam-se sirenes, como se quisessem interromper um percurso que ela própria ousara escolher: matar-se para não morrer!

Nos lábios azulados levava o sabor da fome de justiça, e o ventre parecia inchado de tanto sofrer.

A multidão continuava a aumentar, o espectáculo era digno de se ver . A chuva caía miudinha como se quisesse abençoar a suicida, e conceder-lhe o perdão por tamanha atrocidade. 

Havia rumores espalhados pela cidade, que mostravam bem a falta de equidade dos conterrâneos.

Afirmavam que era jovem, apesar da placidez e anonimato de um rosto cinzelado.

Houve até quem conseguisse apreciar a sua beleza, na fugacidade da pele entregue ao destino das águas.

E assim continuou o caminho, tendo como único carinho as caricias do vento e o resto dos sonhos que com ela adormeceram. 


Na manhã seguinte, o rio galgou as margens e um relâmpago abateu-se sobre a terra ...iluminando-a...


(eu)

Imagem- retirada da net

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Escuridão



Tardam em mim as vielas iluminadas, 
onde permanecem silêncios adormecidos
nos sonhos da noite.

Nenhuma lua se quer amante do vento
a soprar resquícios de outros tempos.
ou de outras horas.

Que desconforto!

Escondo entre as mãos o rosto enfadado
enquanto trauteio uma escala de dó, e 
espero que a pele se insinue 
aos dedos.

Que desilusão!

Nem um vislumbre!

E o verso morre só, 
desiludido, 
calcinado pelo atrito da mente,
na escuridão 
que se anuncia 
sempre 

que o olhar se desfaz...


(eu)

Imagem-Ida Budetta

sábado, 4 de janeiro de 2014

Escrevo-te



Gosto tanto das palavras que se estendem para além da pele.
Gosto daqueles beijos que se excedem depois das margens de probabilidades já acrescidas.
Gosto tanto quando o tempo não passa de um mero pretexto, onde consolidamos gestos que pensávamos gastos.
E assim, nas águas do meu rio, embalo os corpos, cujas mãos solitárias conseguem alcançar o infinito dos lábios!

E beijo-as!

Então... fala-me desse carinho, com que me desnudas a alma,
onde quase tudo se resume a palavras mais ou menos ilegíveis,
saboreadas sobre a minha carne.

Depois, quero saber da frialdade e placidez do sorriso desabitado,
do esforço para que o rosto não se torne granítico,
onde os beijos e os gestos ficam cristalizados.

Quero saber tanta coisa...

Mas, hoje, deixa apenas que as tuas palavras se entreguem ao desejo dos meus sonhos.
E este olhar com que te vejo, parecer-te-á agradecido
por esta história - que só tu e eu sabemos ler.

(eu)



                                                                               

Imagens- Liu Yuanshou

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Trinta e Dois Anos


Longe vão os anos
em que te encontrei
minha alma gémea 
por quem me apaixonei.

Dentro de mim fervilhava 
um coração encoberto pelo frio do inverno
aquecido sobre um leito de ternura e afecto,
onde começava uma vida que se estendia,
para te amar mais... e mais, e mais...

tu sabes:

- mais até do que podia-.

Era Janeiro e acendia-se a cor da paixão,
nas minhas rosas, no laço que puseste ao pescoço, 
e no anel dourado que colocaste na minha mão.

Passaram anos e anos de uma vida cristalina, 
edificada, afortunada, abundante:
em amor, em afectos, em sorrisos , em alegrias.

As rosas não murcharam e o jardim continua a florir,
o laço alongou-se , o amor cresceu,
mais flores nasceram, mais estrelas luziram.

-Só o anel dourado da minha mão se perdeu-.

-por descuido meu-

Não, não me esqueci dele, nem do dia em que o recebi 
sobre dois corações entrelaçados,
e de olhos embaciados pela respiração do teu beijo, 
olhei-te já despossuída do tule branco que me servia de esconderijo,

E prometi:

amar-te, amar-te , amar-te...

tu sabes:

-amar-te sempre, amar-te mais,
e fazer do amor o meu (e)terno regozijo-

Agora preciso procurar o anel dourado,
nos labirintos do poema,
pois só assim, ouvirás a voz do meu amor, 
e deixará de fazer sentido o eco inaudível 
de alguma presumível dor.

Então... de dedos despidos e corpo nu, 
como as aves que sobrevoam os céus , 
em busca dele voarei,

minha alma gémea
por quem me apaixonei.

(eu)

Fotografia: Alfred Cheney Johnston

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A Barca



Debico profundezas, 
por assim dizer
dispenso superficialidades.

Mas também 
quero o rio claro,
transparente,
como flores que se despem
despojadas de vaidades.

Os ventos fortes 
sacodem o mastro 
e a barca muda de direcção.

Cubro-me de esperança,
renego moeda a Caronte
e seguro o meu coração.
Exulto-lhe  tempestades,
nos dentes aperto a vida
e a caixa de Pandora na mão.

Na outra margem de Aqueronte,
Hades esperar-me -á, 
até que a morte se dissolva. 


(eu)


Imagem- Google

sábado, 14 de dezembro de 2013

Um Sonho de Papel



Chamavam-na por um diminutivo, normalmente usado para o seu nome. E ela respondia com um sorriso espontâneo e curvilíneo tão largo, capaz de abarcar  o mundo.  Era assim que sentia, era assim que se via, era assim que pensava, como se já tivesse nascido mulher, e transportasse o peso do mundo, nos seus ainda pequeninos ombros.

A expressão do seu olhar, emanava um brilho meio transparente meio luzidio, capaz de iluminar as travessas mais escuras da vida. E ela tinha consciência disso. Sabia que tinha de proteger, que tinha de ajudar, que tinha de indicar caminhos, àqueles que por cegueira não conseguiam alcançar com os olhos, as coisas mais simples.

Nada lhe era devido, tudo lhe era emprestado. Até a alcova que lhe servira de colo, tinha a rede gasta puída, de outros afectos, construídos à margem do tempo e do espaço que era seu.

Era inteligente, assim diziam. Não sei se por ser verdade, ou se por ser motivo de reconhecimento para quem  o dizia. No entanto, o seu conhecimento era maior ,que tudo o que alguma vez lhe ensinaram. O seu amor era maior, que aquele que alguma vez sentira receber.

Há pouco tempo foi-me apresentada. E a emoção foi tanta quando olhei para ela, que os meus olhos se embaciaram com a nudez da sua alma.

Falou-me dos dias longínquos de sonhos interrompidos, dos segredos guardados no cofre das emoções mais íntimas, dos desejos sufocados e reprimidos por diversas tempestades, das crenças adiadas, e das desilusões assumidas sem reclamar.

Confessou-me ter sido mais forte que a força que possuía. E também de ter amado mais do que podia.

Revelou-se. E eu escutei-a.

Senti vontade de saber mais, de perguntar sobre si, mas contive-me e apenas  abracei-a.

Posso afirmar que foi o abraço mais longo da minha vida, os braços cresciam-me sem que eu conseguisse enlaçá-la.

À medida que tentava abraçá-la, o seu corpo alongava-se em todas as direcções. E ficou tão grande, tão grande, que deixou de caber dentro do nome que usavam quando a chamavam. E assumiu o seu. O verdadeiro. O que lhe era devido.

Porque sim. E porque o merecia. Disse-me.

A partir daí, atreveu-se a sonhar, com papagaios de papel.


(eu)

Imagem- Olga Sinclair


domingo, 8 de dezembro de 2013

Promessa



Soubesse-te eu leve,
suave, adocicado, 
nos meus lábios em chama,
deixarias de ser poema
e faria de ti...

Faria de ti livro aberto,
coberto de melodias ancestrais, 
faria de ti o verbo, 
verbo
amantíssimo e secreto.

"Escrituras sapienciais"

E sempre que te beijasse,
não mais sentiria carne,
nem fogo, nem sangue. 
Serias alma ou fôlego 
principio e  fim, 
essência viva
que flui escorreita 
dentro de mim.

porque me resistes tanto,
se apenas queria escrever-te?

(eu)

Imagem: Elena Dudina

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

À Procura De Mim


Passaram onze marés
sete sóis e nove ventos,
três estrelas cadentes,

-e dez mulheres grávidas em fim de tempo-

Da janela da sala contei:
cinco velhos sem bengala,
oito pretos, sete brancos, três chineses,
ouvi uma voz que me chamava.

-e eu não me encontrei-

Carreguei pesos que não me pertenciam,
galguei montanhas que não existiam,
vislumbrei estrelas que não luziram,
construí mundos que se perderam,
sonhei improbabilidades que não aconteceram.

- e eu nunca me vi-

Orei a deuses, acreditei em duendes,
em fadas, elfos, driades e magias,
e procurei no mundo alegrias.

- e nunca as achei-

Veio o Outono começou a chover,
mudaram os sonhos, mudaram os tempos,

-e eu à espera de me ver-

(eu)

Imagem- Google

sábado, 9 de novembro de 2013

Hoje

        Fotografia de Alfred Cheney Johnston


Hoje faço anos e
ergo-me serena.

Desta vez - e só desta vez -
deixei o medo guardado no outro lado de mim. 

Há uma sede de frescura a crepitar-me nos lábios,
mas o caminho que se me afigura adiante 
é pantanoso [diria até pernicioso] 
e ladeado de charcos com sabor a sal.

Um dia disse-te: 
"Há dias, muitos dias, em que todas as palavras te pertencem".
As minhas!

Respondeste-me com um sorriso lânguido que me fez
sorrir-te também. 

E fui atrás de ti, para onde todas as  palavras me levaram.
As tuas!

Mesmo aquelas que não disseste. Ou não conseguiste dizer. 
Acho que preferiste resguardá-las para uma cerimónia de iniciação, 
um pouco antes de adormecermos. Os dois.

Achei bem, e abracei-me a ti. 

Li-te nos olhos o amor.
Falaram-me dos dias felizes, em que todos os jardins floriam
ao nascer do sol.

Mas, um dia, todos os poetas estarão mortos. 
E as flores serão decepadas e depositadas em jarras de vidro. 
Assim acabarão os jardins.
E a vida deixará de ser colorida e de ter perfume. 
[A terra ficará árida.] Sobrarão apenas as sombras,
as memórias e, quem sabe, o eco das palavras.

Das minhas. Das tuas.

Antevejo  o caminho que nos resta percorrer
a escorregar pelos portões da vida.
Todas as palavras que nos restam se tornarão mudas 
no escuro da noite.
Onde adormeceremos juntos.

De olhos cerrados, de mãos entrelaçadas,
tal qual aquelas que entrelaçaram as nossas vidas.

A minha. A tua. A nossa.

(eu)

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Passos Incertos

                                           Imagem- Escher




Ainda não sei porque me desencontrei
dos passos dos homens,
como se um fio luminoso marcasse a rota, e insistisse
em segurar-me os pés,
sobre a lâmina acutilante de uma navalha aguçada.

Amedrontada,
num equilíbrio quase forçado, ergo-me (trans)lúcida
numa tentativa infrutífera de encarar quem ousou
decepar-me os sonhos.

Silenciada,
na transparência de um Outono antecipado,
tento ensaiar o caminho, numa sequência de passos
sem retorno.

Mas ainda caminho!
.
.
.
ainda consigo caminhar...
.
.
.
Faço-me acompanhar de palavras
desiludidas pelas melodias que deixaram de entoar.
E os sorrisos que outrora me embalavam, tornaram-se hoje,
canções de despedida.
.
.
.

As marés, as noites de luar, o chilrear dos pássaros,
caíram no esquecimento das coisas sem nome.

Mas eu continuo a caminhar...
.
.
.

Num corpo cada vez mais frágil,
à medida que o coração se agiganta.
E cresce...
                       CRESCE
                                               CRESCE.


A cada passo que dou,
a venda outrora opaca que me cobria o olhar cansado,
desdobra-se no horizonte,
deixando transparecer a luz da minha existência.

Pressinto o respirar das árvores,
pressinto o canto das estrelas,
pressinto o pulsar do sangue da vida,
e, por momentos, parece-me lógica a imortalidade de todas as coisas.

Quem sabe, numa outra dimensão, estará a ser pronunciado o meu nome.
Quem sabe, estes passos me conduzirão a algum lugar.


quem sabe...
talvez
.
.

eu caminhe com destino...

Pois sem parar, de pés descalços, continuo sempre,

                                                                                       

                                                                                        a caminhar...

(eu)

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Imagem do filme Pillow Book, de Peter Greenaway

E porque acho que o que é belo deve ser partilhado, com a devida autorização do autor, deixo aqui mais um texto de António Cebola. Com quem tenho o privilégio de estar casada, há quase trinta e dois anos...


Ouroboros

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”
Fernando Pessoa

(Para que conste: és um produto do Quarteirão do Escritor, e eu sou o teu Criador.)

Queria-te belo e formoso. A minha Dafne transfolheada de loiro.

Imaginava-te dúctil, subserviente. Moldável e fluido. Vertido duma torrente irreprimível, caudalosa.

Sonhava-te exótico, desenhado com linhas árabes, siamesas, kanji, ou sânscritas. Reinventava-te permanentemente, adornando-te com oximoros, prosopopeias e quejandos.

Desejava-te sage e letrado. Reflexo de todas as ciências e de todas as artes que te precederam, e das que habit (-áram; -am; -arão) outros espaço e tempos. Resplandecência virtuosa.

Mas não aceitaste a tua condição de criatura. Aspiravas a voos mais altos: querias ser, também, criador. Rebelaste-te contra a força do punho que te queria plasmado na folha imaculada. Desprezaste as oferendas – meras especiarias – que poderiam temperar o teu corpo e embriagar o espírito dos homens. Estancaste a corrente criadora e inverteste-lhe a direcção. Ousaste interrogar-me.

Podias ter sido um conto: não vales um tostão: exibes-te pedante e cabotino, iletrado e ignaro.

A substância da obra ficou aquém do sonho da ideia. Renegaste a imortalidade. Repudio-te. Morreste-me.

Exauridos, chegámos ao

FIM

(a folha seguinte está, outra vez – teimosamente –, em branco)

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Body and Soul

                                                                         
                                                                             

Imagem: Edward Hopper

Um conto que me tocou, pela criatividade, pela sensibilidade, pela mensagem que transmite, e...e...porque o autor é o meu marido António Cebola.

 Body and Soul

“Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa somos nós”.
José Saramago

O velho Jack Daniels, tão querido e popular entre os seus amigos, estava morto. À sua frente, em cima da mesa, jazia uma chávena de cappuccino, um maço de cigarros Winston (caixa mole), uma carteira de fósforos, um cinzeiro com quatro priscas espremidas e um cigarro que ainda espirava um véu translúcido e ondulante de fumo cinza. Mais perto de si, e debaixo do peso da sua mão direita, como que a querer não deixar escapar o seu assassino, estava um livro, aberto na última página do conto “De quanta terra é que um homem precisa?”. 

 Ninguém se apercebera da sua morte. 

 (A leitura é um acto solitário e silencioso: a voz que nos mata está dentro de nós.) 

 Em fundo, ouvia-se o saxofone tenor – aveludado de azuis – de Coleman Hawkins, interpretando Body and Soul

 *** 

Jack trabalhava no bairro financeiro. Mas gostava de sair de lá, sempre que podia, indo para o outro lado da Canal, a uma cafetaria que fica no cruzamento da Varick com a Houston. Preferia o seu ambiente de colarinhos azuis ao dos brancos que dominavam o bairro onde trabalhava. Lembravam-no de seu pai. E da sua terra. Eram 6:44 quando entrou na cafetaria. Tinha estado a trabalhar, consecutivamente, cerca de vinte e quatro horas. O projecto que tinha entre mãos – compra de uma empresa subvalorizada, seguida do seu desmembramento em unidades mais pequenas, com estruturas de custos mais reduzidas e com padrões de gestão mais profissionais, e a subsequente venda e realização de ganhos vultosos – tinha que estar concluído até sexta-feira. Tinha que fazer tudo para contribuir para o sucesso da operação. Nada mais contava. Afinal, estavam em Setembro e, daí a poucos meses, começariam a ser definidos os valores dos prémios salariais desse ano. No ano anterior, em 2000, tinha sido recompensado com sete milhões de dólares; este ano, se a operação tivesse sucesso, podia contar com o dobro, seguramente. Levava consigo uma edição de “The Kreutzer Sonata and Other Stories”, de Tolstói[1], que adquirira na Strand, na Broadway com a 12. Enquanto tomava o pequeno-almoço – panquecas com xarope de ácer –, ficou a conhecer a história de Pahom. 

 *** 

Exactamente duas horas mais tarde, já recomposto, o novo Jack Daniels pediu a conta e saiu. Não se tinha apercebido da passagem do tempo: já deveria estar no seu escritório, no 94.º piso da Torre Norte do World Trade Center. Acelerando o passo, dirigiu-se para a estação de Hudson St. do metro da 7.ª Av., dizendo de si para si que, a partir de hoje, dia 11, a sua vida iria mudar radicalmente. E, porque ia com a cabeça-no-ar e com passo estugado, não deixou de notar um avião que sobrevoava Nova Iorque baixamente. 


[1] The Franklin Library, Franklin Center, Pennsylvania, 1983. Ilustrações de Don Bolognese. Uma edição limitada da colecção “The World’s Greatest Writers”.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Noites Cansadas


Instalam-se sem dó 
as noites cansadas, 
onde o leito, outrora de amor, 
hoje é dor de águas fugidias, 
geladas e separadas 
por um troço de lençol, 
que divide os corpos já sem nada 
por despir.

Os dedos, 
majestosos e macios, 
cansaram-se dos sulcos amarelecidos pelo tempo,
e os lábios esqueceram o fulgor das línguas 
que se entrelaçavam em beijos 
adocicados pelas pétalas do desejo.

É neste deserto, de lençóis imaculados, 
que se movem em choro os corpos silenciados 
por palavras gastas, 
e se lambem feridas que sangram da alma, 
sempre que a saudade se instala, 
e surgem lembranças de um amor 
que se estendia por todos os lugares.  

E o rio corria sem leito. 
Eram as paredes que amparavam os corpos 
e os astros ajudavam a inventar lugares, 
onde insano, 
era aquele que impunha fronteiras 

ao desabrochar da poesia. Ou,
ousava profanar o amor...



(eu)



Imagem-Google