segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Passos Incertos

                                           Imagem- Escher




Ainda não sei porque me desencontrei
dos passos dos homens,
como se um fio luminoso marcasse a rota, e insistisse
em segurar-me os pés,
sobre a lâmina acutilante de uma navalha aguçada.

Amedrontada,
num equilíbrio quase forçado, ergo-me (trans)lúcida
numa tentativa infrutífera de encarar quem ousou
decepar-me os sonhos.

Silenciada,
na transparência de um Outono antecipado,
tento ensaiar o caminho, numa sequência de passos
sem retorno.

Mas ainda caminho!
.
.
.
ainda consigo caminhar...
.
.
.
Faço-me acompanhar de palavras
desiludidas pelas melodias que deixaram de entoar.
E os sorrisos que outrora me embalavam, tornaram-se hoje,
canções de despedida.
.
.
.

As marés, as noites de luar, o chilrear dos pássaros,
caíram no esquecimento das coisas sem nome.

Mas eu continuo a caminhar...
.
.
.

Num corpo cada vez mais frágil,
à medida que o coração se agiganta.
E cresce...
                       CRESCE
                                               CRESCE.


A cada passo que dou,
a venda outrora opaca que me cobria o olhar cansado,
desdobra-se no horizonte,
deixando transparecer a luz da minha existência.

Pressinto o respirar das árvores,
pressinto o canto das estrelas,
pressinto o pulsar do sangue da vida,
e, por momentos, parece-me lógica a imortalidade de todas as coisas.

Quem sabe, numa outra dimensão, estará a ser pronunciado o meu nome.
Quem sabe, estes passos me conduzirão a algum lugar.


quem sabe...
talvez
.
.

eu caminhe com destino...

Pois sem parar, de pés descalços, continuo sempre,

                                                                                       

                                                                                        a caminhar...

(eu)

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Imagem do filme Pillow Book, de Peter Greenaway

E porque acho que o que é belo deve ser partilhado, com a devida autorização do autor, deixo aqui mais um texto de António Cebola. Com quem tenho o privilégio de estar casada, há quase trinta e dois anos...


Ouroboros

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”
Fernando Pessoa

(Para que conste: és um produto do Quarteirão do Escritor, e eu sou o teu Criador.)

Queria-te belo e formoso. A minha Dafne transfolheada de loiro.

Imaginava-te dúctil, subserviente. Moldável e fluido. Vertido duma torrente irreprimível, caudalosa.

Sonhava-te exótico, desenhado com linhas árabes, siamesas, kanji, ou sânscritas. Reinventava-te permanentemente, adornando-te com oximoros, prosopopeias e quejandos.

Desejava-te sage e letrado. Reflexo de todas as ciências e de todas as artes que te precederam, e das que habit (-áram; -am; -arão) outros espaço e tempos. Resplandecência virtuosa.

Mas não aceitaste a tua condição de criatura. Aspiravas a voos mais altos: querias ser, também, criador. Rebelaste-te contra a força do punho que te queria plasmado na folha imaculada. Desprezaste as oferendas – meras especiarias – que poderiam temperar o teu corpo e embriagar o espírito dos homens. Estancaste a corrente criadora e inverteste-lhe a direcção. Ousaste interrogar-me.

Podias ter sido um conto: não vales um tostão: exibes-te pedante e cabotino, iletrado e ignaro.

A substância da obra ficou aquém do sonho da ideia. Renegaste a imortalidade. Repudio-te. Morreste-me.

Exauridos, chegámos ao

FIM

(a folha seguinte está, outra vez – teimosamente –, em branco)

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Body and Soul

                                                                         
                                                                             

Imagem: Edward Hopper

Um conto que me tocou, pela criatividade, pela sensibilidade, pela mensagem que transmite, e...e...porque o autor é o meu marido António Cebola.

 Body and Soul

“Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa somos nós”.
José Saramago

O velho Jack Daniels, tão querido e popular entre os seus amigos, estava morto. À sua frente, em cima da mesa, jazia uma chávena de cappuccino, um maço de cigarros Winston (caixa mole), uma carteira de fósforos, um cinzeiro com quatro priscas espremidas e um cigarro que ainda espirava um véu translúcido e ondulante de fumo cinza. Mais perto de si, e debaixo do peso da sua mão direita, como que a querer não deixar escapar o seu assassino, estava um livro, aberto na última página do conto “De quanta terra é que um homem precisa?”. 

 Ninguém se apercebera da sua morte. 

 (A leitura é um acto solitário e silencioso: a voz que nos mata está dentro de nós.) 

 Em fundo, ouvia-se o saxofone tenor – aveludado de azuis – de Coleman Hawkins, interpretando Body and Soul

 *** 

Jack trabalhava no bairro financeiro. Mas gostava de sair de lá, sempre que podia, indo para o outro lado da Canal, a uma cafetaria que fica no cruzamento da Varick com a Houston. Preferia o seu ambiente de colarinhos azuis ao dos brancos que dominavam o bairro onde trabalhava. Lembravam-no de seu pai. E da sua terra. Eram 6:44 quando entrou na cafetaria. Tinha estado a trabalhar, consecutivamente, cerca de vinte e quatro horas. O projecto que tinha entre mãos – compra de uma empresa subvalorizada, seguida do seu desmembramento em unidades mais pequenas, com estruturas de custos mais reduzidas e com padrões de gestão mais profissionais, e a subsequente venda e realização de ganhos vultosos – tinha que estar concluído até sexta-feira. Tinha que fazer tudo para contribuir para o sucesso da operação. Nada mais contava. Afinal, estavam em Setembro e, daí a poucos meses, começariam a ser definidos os valores dos prémios salariais desse ano. No ano anterior, em 2000, tinha sido recompensado com sete milhões de dólares; este ano, se a operação tivesse sucesso, podia contar com o dobro, seguramente. Levava consigo uma edição de “The Kreutzer Sonata and Other Stories”, de Tolstói[1], que adquirira na Strand, na Broadway com a 12. Enquanto tomava o pequeno-almoço – panquecas com xarope de ácer –, ficou a conhecer a história de Pahom. 

 *** 

Exactamente duas horas mais tarde, já recomposto, o novo Jack Daniels pediu a conta e saiu. Não se tinha apercebido da passagem do tempo: já deveria estar no seu escritório, no 94.º piso da Torre Norte do World Trade Center. Acelerando o passo, dirigiu-se para a estação de Hudson St. do metro da 7.ª Av., dizendo de si para si que, a partir de hoje, dia 11, a sua vida iria mudar radicalmente. E, porque ia com a cabeça-no-ar e com passo estugado, não deixou de notar um avião que sobrevoava Nova Iorque baixamente. 


[1] The Franklin Library, Franklin Center, Pennsylvania, 1983. Ilustrações de Don Bolognese. Uma edição limitada da colecção “The World’s Greatest Writers”.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Noites Cansadas


Instalam-se sem dó 
as noites cansadas, 
onde o leito, outrora de amor, 
hoje é dor de águas fugidias, 
geladas e separadas 
por um troço de lençol, 
que divide os corpos já sem nada 
por despir.

Os dedos, 
majestosos e macios, 
cansaram-se dos sulcos amarelecidos pelo tempo,
e os lábios esqueceram o fulgor das línguas 
que se entrelaçavam em beijos 
adocicados pelas pétalas do desejo.

É neste deserto, de lençóis imaculados, 
que se movem em choro os corpos silenciados 
por palavras gastas, 
e se lambem feridas que sangram da alma, 
sempre que a saudade se instala, 
e surgem lembranças de um amor 
que se estendia por todos os lugares.  

E o rio corria sem leito. 
Eram as paredes que amparavam os corpos 
e os astros ajudavam a inventar lugares, 
onde insano, 
era aquele que impunha fronteiras 

ao desabrochar da poesia. Ou,
ousava profanar o amor...



(eu)



Imagem-Google

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Sentada no Cais


Sim, 
permaneço sentada no cais.
Numa espera tão inútil, 
como o tempo que se gasta
a conjugar os verbos no futuro.

Vejo-me nua. 
Despida de preconceitos, 
de esperanças mal medidas, 
de alcunhas inventadas,
de vestes, 
de poderes, 
de tudo o que me deram 
sem eu tivesse pedido 
e muito menos possuído.

Olho em redor, 
no cais, 
nesta espera infindável,
e tomo consciência 
de que nunca saíra dali.
Inquieta, 
sinto o sabor dos verbos 
a conjugarem-se em catadupa 
em todos os pretéritos.

Mais uma vez, e desta, 
mais categórica que nunca,
recuso a inutilidade desta espera 
que me arrefece o corpo,
enquanto a vida se esvai pelos poros.

E subtilmente inspiro a ultima réstia de luz, 
naquele lugar onde ainda é possível
adiar a morte.

Sentada no cais.

(eu)

Imagem- Olga Domanova