Imagem- Escher
Ainda não sei porque me desencontrei
dos passos dos homens,
como se um fio luminoso marcasse a rota, e insistisse
em segurar-me os pés,
sobre a lâmina acutilante de uma navalha aguçada.
Amedrontada,
num equilíbrio quase forçado, ergo-me (trans)lúcida
numa tentativa infrutífera de encarar quem ousou
decepar-me os sonhos.
Silenciada,
na transparência de um Outono antecipado,
tento ensaiar o caminho, numa sequência de passos
sem retorno.
Mas ainda caminho!
.
.
.
ainda consigo caminhar...
.
.
.
Faço-me acompanhar de palavras
desiludidas pelas melodias que deixaram de entoar.
E os sorrisos que outrora me embalavam, tornaram-se hoje,
canções de despedida.
.
.
.
As marés, as noites de luar, o chilrear dos pássaros,
caíram no esquecimento das coisas sem nome.
Mas eu continuo a caminhar...
.
.
.
Num corpo cada vez mais frágil,
à medida que o coração se agiganta.
E cresce...
CRESCE
CRESCE.
A cada passo que dou,
a venda outrora opaca que me cobria o olhar cansado,
desdobra-se no horizonte,
deixando transparecer a luz da minha existência.
Pressinto o respirar das árvores,
pressinto o canto das estrelas,
pressinto o pulsar do sangue da vida,
e, por momentos, parece-me lógica a imortalidade de todas as coisas.
Quem sabe, numa outra dimensão, estará a ser pronunciado o meu nome.
Quem sabe, estes passos me conduzirão a algum lugar.
quem sabe...
talvez
.
.
eu caminhe com destino...
Pois sem parar, de pés descalços, continuo sempre,
a caminhar...
(eu)
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Imagem do filme Pillow Book, de Peter Greenaway
E porque acho que o que é belo deve ser partilhado, com a devida autorização do autor, deixo aqui mais um texto de António Cebola. Com quem tenho o privilégio de estar casada, há quase trinta e dois anos...
E porque acho que o que é belo deve ser partilhado, com a devida autorização do autor, deixo aqui mais um texto de António Cebola. Com quem tenho o privilégio de estar casada, há quase trinta e dois anos...
Ouroboros
“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”
Fernando Pessoa
(Para que conste: és um produto do Quarteirão do Escritor, e eu sou o teu Criador.)
Queria-te belo e formoso. A minha Dafne transfolheada de loiro.
Imaginava-te dúctil, subserviente. Moldável e fluido. Vertido duma torrente irreprimível, caudalosa.
Sonhava-te exótico, desenhado com linhas árabes, siamesas, kanji, ou sânscritas. Reinventava-te permanentemente, adornando-te com oximoros, prosopopeias e quejandos.
Desejava-te sage e letrado. Reflexo de todas as ciências e de todas as artes que te precederam, e das que habit (-áram; -am; -arão) outros espaço e tempos. Resplandecência virtuosa.
Mas não aceitaste a tua condição de criatura. Aspiravas a voos mais altos: querias ser, também, criador. Rebelaste-te contra a força do punho que te queria plasmado na folha imaculada. Desprezaste as oferendas – meras especiarias – que poderiam temperar o teu corpo e embriagar o espírito dos homens. Estancaste a corrente criadora e inverteste-lhe a direcção. Ousaste interrogar-me.
Podias ter sido um conto: não vales um tostão: exibes-te pedante e cabotino, iletrado e ignaro.
A substância da obra ficou aquém do sonho da ideia. Renegaste a imortalidade. Repudio-te. Morreste-me.
Exauridos, chegámos ao
FIM
(a folha seguinte está, outra vez – teimosamente –, em branco)
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
Body and Soul
Imagem: Edward Hopper
Um conto que me tocou, pela criatividade, pela sensibilidade, pela mensagem que transmite, e...e...porque o autor é o meu marido António Cebola.
Body and Soul
“Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa somos nós”.
José Saramago
O velho Jack Daniels, tão querido e popular entre os seus amigos, estava morto. À sua frente, em cima da mesa, jazia uma chávena de cappuccino, um maço de cigarros Winston (caixa mole), uma carteira de fósforos, um cinzeiro com quatro priscas espremidas e um cigarro que ainda espirava um véu translúcido e ondulante de fumo cinza. Mais perto de si, e debaixo do peso da sua mão direita, como que a querer não deixar escapar o seu assassino, estava um livro, aberto na última página do conto “De quanta terra é que um homem precisa?”.
Ninguém se apercebera da sua morte.
(A leitura é um acto solitário e silencioso: a voz que nos mata está dentro de nós.)
Em fundo, ouvia-se o saxofone tenor – aveludado de azuis – de Coleman Hawkins, interpretando Body and Soul.
***
Jack trabalhava no bairro financeiro. Mas gostava de sair de lá, sempre que podia, indo para o outro lado da Canal, a uma cafetaria que fica no cruzamento da Varick com a Houston. Preferia o seu ambiente de colarinhos azuis ao dos brancos que dominavam o bairro onde trabalhava. Lembravam-no de seu pai. E da sua terra.
Eram 6:44 quando entrou na cafetaria. Tinha estado a trabalhar, consecutivamente, cerca de vinte e quatro horas. O projecto que tinha entre mãos – compra de uma empresa subvalorizada, seguida do seu desmembramento em unidades mais pequenas, com estruturas de custos mais reduzidas e com padrões de gestão mais profissionais, e a subsequente venda e realização de ganhos vultosos – tinha que estar concluído até sexta-feira. Tinha que fazer tudo para contribuir para o sucesso da operação. Nada mais contava. Afinal, estavam em Setembro e, daí a poucos meses, começariam a ser definidos os valores dos prémios salariais desse ano. No ano anterior, em 2000, tinha sido recompensado com sete milhões de dólares; este ano, se a operação tivesse sucesso, podia contar com o dobro, seguramente.
Levava consigo uma edição de “The Kreutzer Sonata and Other Stories”, de Tolstói[1], que adquirira na Strand, na Broadway com a 12. Enquanto tomava o pequeno-almoço – panquecas com xarope de ácer –, ficou a conhecer a história de Pahom.
***
Exactamente duas horas mais tarde, já recomposto, o novo Jack Daniels pediu a conta e saiu. Não se tinha apercebido da passagem do tempo: já deveria estar no seu escritório, no 94.º piso da Torre Norte do World Trade Center. Acelerando o passo, dirigiu-se para a estação de Hudson St. do metro da 7.ª Av., dizendo de si para si que, a partir de hoje, dia 11, a sua vida iria mudar radicalmente.
E, porque ia com a cabeça-no-ar e com passo estugado, não deixou de notar um avião que sobrevoava Nova Iorque baixamente.
[1] The Franklin Library, Franklin Center, Pennsylvania, 1983. Ilustrações de Don Bolognese. Uma edição limitada da colecção “The World’s Greatest Writers”.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Noites Cansadas
Instalam-se sem dó
as noites cansadas,
onde o leito, outrora de amor,
hoje é dor de águas fugidias,
geladas e separadas
por um troço de lençol,
que divide os corpos já sem nada
por despir.
Os dedos,
majestosos e macios,
cansaram-se dos sulcos amarelecidos pelo tempo,
e os lábios esqueceram o fulgor das línguas
que se entrelaçavam em beijos
adocicados pelas pétalas do desejo.
É neste deserto, de lençóis imaculados,
que se movem em choro os corpos silenciados
por palavras gastas,
e se lambem feridas que sangram da alma,
sempre que a saudade se instala,
e surgem lembranças de um amor
que se estendia por todos os lugares.
E o rio corria sem leito.
Eram as paredes que amparavam os corpos
e os astros ajudavam a inventar lugares,
onde insano,
era aquele que impunha fronteiras
ao desabrochar da poesia. Ou,
ousava profanar o amor...
(eu)
Imagem-Google
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Sentada no Cais
Sim,
permaneço sentada no cais.
Numa espera tão inútil,
como o tempo que se gasta
a conjugar os verbos no futuro.
Vejo-me nua.
Despida de preconceitos,
de esperanças mal medidas,
de alcunhas inventadas,
de vestes,
de poderes,
de tudo o que me deram
sem eu tivesse pedido
e muito menos possuído.
Olho em redor,
no cais,
nesta espera infindável,
e tomo consciência
de que nunca saíra dali.
Inquieta,
sinto o sabor dos verbos
a conjugarem-se em catadupa
em todos os pretéritos.
Mais uma vez, e desta,
mais categórica que nunca,
recuso a inutilidade desta espera
que me arrefece o corpo,
enquanto a vida se esvai pelos poros.
E subtilmente inspiro a ultima réstia de luz,
naquele lugar onde ainda é possível
adiar a morte.
Sentada no cais.
(eu)
Imagem- Olga Domanova
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